Academias

 

Academia Hermética Kremmerziana

“MANLIO MAGNANI”

São Paulo

“Ou a vida é um rito ou não é nada”

No dia 27 de junho de 2015, durante a Assembléia Geral da Fraternidade Hermética, reunida na sede da Delegação Geral, foi eleito Presidente da Academia Hermética “Manlio Magnani” de São Paulo o irmão Asiel.

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“DESCIDA E RETORNO DA ALMA SEGUNDO O CORPUS HERMETICUM¹”

Como a ideia de “descida e retorno” da alma se encontra em todas as tradições, muito provavelmente seja porque deva existir uma Verdade Original comum a todos os mitos que a retrataram, então vamos ver o que diz o Corpus Hermeticum em alguns de seus trechos, cujo apanhado de textos e conceitos remontam à tradição Egípcia.

- (CH1-9) “A Inteligência Divina Nous, sendo macho e fêmea, existente como vida e luz, faz nascer de sua palavra (verbo/Logos) uma segunda Inteligência criadora (o Nous Demiurgo) que, sendo deus do fogo e do sopro, criou Sete Governadores, os quais envolveram nos seus círculos o mundo sensível; e seu governo se chamou o Destino.”

Aqui fala-se claramente da criação das sete forças planetárias, ou mais especificamente das inteligências que as comandam como uma grande orquestra da harmonia da criação, com suas leis e princípios que produzem o Destino. O Demiurgo, como a criação de uma segunda Inteligência criada a partir da Inteligência primeira, pode ser entendido não como algo separado ou distinto do Criador, mas sim uma extensão de si mesmo para cumprir determinada ação, como uma consequência imediata e instantânea do pensamento criativo da divindade. O mesmo podemos pensar em relação ao Logos, pois que na tradição hermética tudo é Uno.

- (CH1-11) “Porém o Nous demiurgo, conjuntamente ao Verbo, envolvendo os círculos e fazendo-os girar, coloca desta forma em ação o movimento circular de suas criaturas, deixando-as fazer a sua revolução segundo um começo indeterminado até um término sem fim, pois tudo termina onde começa. E esta rotação dos círculos, segundo a vontade do Nous, produziu, tirando-os dos elementos inferiores, os animais irracionais. O ar produziu os voláteis e a água, os nadadores. A água e a terra foram separadas uma da outra, segundo a vontade do Nous, e a terra fez sair de seu próprio seio os animais que em si mesma retinha – quadrúpedes e répteis, bestas selvagens e domésticas.”

O trecho faz referência ao processo de criação do Uno em direção à multiplicidade onde entram em ação, pela inteligência criadora demiúrgica e sua palavra, os sete movimentos com limites e domínios específicos, cujas funções são de formadores de entes e suas particularidades.

- (CH1-12) “A Inteligência Nous, Pai de todos os seres, sendo vida e luz, criou um ser humano semelhante a ela mesma, pelo qual sentiu tanto amor como por seu próprio filho, pois o ser humano era muito belo, reproduzido à imagem de seu Pai: pois é verdadeiramente que a Divindade amou a sua própria forma e legou-lhe todas as suas obras.”

A potência com a qual foi criado o Homem como imagem da própria Inteligência Primeira faz dele um ser de qualidades divinas acima das demais criaturas mortais.

- (CH1-13) “Ora, assim que percebeu a criação que o demiurgo fizera no fogo, o ser humano quis criar, também, uma obra, e o Pai deu-lhe permissão. Entrando então na esfera da criação, onde deveria ter plenos poderes, percebeu as obras de seus irmãos, e os Governadores apaixonaram-se por ele e cada um deu-lhe parte de sua própria magistratura. Tendo então aprendido a conhecer suas essências e tendo recebido participação de suas naturezas, quis ultrapassar a periferia dos círculos e conhecer a potência daquele que reina sobre o fogo.”

Em poucas palavras, o texto retrata um Ser capaz de sondar além dos limites impostos às outras criaturas, de conhecer as suas essências e delas participar, e com a curiosa possibilidade de querer ousar.

- (CH1-14) – “Então o Homem, que tinha pleno poder sobre o mundo dos seres mortais e animais irracionais, lançou-se através dos limites das esferas e rompendo seu envoltório fez mostrar à Natureza de baixo, a bela forma de Deus. Quando ela o viu, o ser que possuía em si a beleza insuperável e toda a energia dos Governadores aliada à forma de Deus, a Natureza sorriu de amor, pois tinha visto os traços desta forma maravilhosamente bela do ser humano se refletir na água e sua sombra sobre a terra. Tendo ele percebido este seu reflexo na Natureza, refletida na água, amou-a e quis aí habitar. Assim que o quis, foi feito, e veio habitar a forma sem razão. Então a Natureza, tendo recebido nela seu amado, enlaçou-o totalmente e eles se uniram pois queimavam de amor.”

Ao ver-se refletido na parte passiva e fecundável da criação que chamamos de Natureza, o homem enamora-se de sua própria imagem, e esta Natureza ao identificar a potencialidade divina e fonte criadora das formas que nela habitavam, desejou acolher este reflexo em seu interior. Desta fusão em forma de cópula faz o homem gerar um novo corpo com a natureza inferior, agora de matéria densa, mortal e finita.

- (CH1-15) – Esta é a razão pela qual, de todos os seres que vivem sobre a terra, o ser humano é o único que é duplo, mortal pelo seu corpo, imortal por sua essência. Ainda que seja imortal e que tenha poder sobre todas as coisas, submeteu-se ao destino que que rege os mortais, por esta razão, ainda que seja superior às coisas do mundo, tornou-se escravo deste: macho e fêmea como Pai e isento de sono pois proveio de um ser isento de sono, foi vencido pela paixão e pelo sono.”

Este trecho nos mostra o resultado da materialização da vontade por um ato de amor, o que muitas mitologias vão chamar de queda por gerar a limitação do que antes era sem limites, morte ao que era imortal, sono ao que estava desperto, divisão macho e fêmea ao estava unido, mas talvez por esta possibilidade de experimentar e participar das potências e formas da criação e da natureza, torne a vivência da alma humana como algo único em toda a criação.

- (CH1-16) – Poimandres diz a Hermes: “O que vou te dizer é o mistério mantido oculto até este dia. A Natureza com efeito, tendo-se unido por amor ao Homem, causou um prodígio surpreendente. O ser humano tinha em si a natureza da conjunção das sete forças, como te disse, composto de fogo e de ar; a Natureza então, incapaz de esperar, procria na hora sete homens correspondentes à natureza dos Sete Governadores, machos e fêmeas, de ordem elevada.”

Nas palavras de Poimandres, ou a Inteligência Divina, podemos imaginar o Homem em dois estados, um que além de conter em si a potencialidade dos Sete Governadores e possuir um corpo espiritual de Fogo, e o segundo estado sendo aquele após sua divisão na matéria bruta, que além de perder este Corpo de Fogo, foi condensado na predominância de uma única potência planetária e por ela submetido na natureza, o que conforme nos ensina o mestre hermetista Giuliano Kremmerz, em forma de chave, é a astralidade na qual devemos trabalhar buscando o equilíbrio através de seu complemento, argumento sobre o qual não me é permitido ir além neste trabalho.

- (CH 10-15) – “(…) Considera a alma de uma criança, meu filho: enquanto ela não foi separada de seu verdadeiro ser e que o corpo ao qual pertence tem apenas um pequeno volume, não atingiu seu pleno desenvolvimento, como é bela de se ver, nesta hora em que não foi tocada pelas paixões do corpo e que está ainda ligada à Alma do Mundo! Mas quando o corpo atingiu o seu volume e arrastou a alma para baixo rumo ao peso corporal, a alma tendo sido separada de seu verdadeiro ser, gera o esquecimento: nada mais tem a haver com o belo-e-bom, sendo este esquecimento que lhe produz o mal.”

Nesta passagem do Corpus fica evidente que o mal para a alma está no esquecimento de sua verdadeira origem e na ignorância de sua razão de ser.

Agora temos o apela ao retorno – (CH1-27,28) – “Oh! homens nascidos da terra, vós que sois abandonados à embriaguez, ao sono e à ignorância de Deus, sacudi vossos torpores sensuais e despertai de vosso embrutecimento.” [...] “Por que, oh! homens nascidos da terra, deixai-vos à mercê da morte, se tendes a potência de participar da imortalidade? Voltai a vós mesmos, vós que caminhais com o erro e tomastes como companhia a ignorância. Afastai-vos da luz tenebrosa, deixai a corrupção uma vez por todas e tomai parte na imortalidade.”

- (CH4-11) – “[...]  Tal é portanto, ó Tat, a imagem de Deus, que desenhei para ti com o melhor de minhas forças: se a contemplares atentamente e a compreenderes com os olhos do coração, creia-me, criança, encontrarás o caminho que leva às coisas do alto. É a própria Imagem que te mostrará o caminho ela mesma. Pois a contemplação possui uma virtude própria: àqueles que uma vez já a contemplaram, toma em sua posse e os atrai a si, como o ímã atrai o ferro.”

Nesta parte do texto recebemos o convite para a contemplação de nossa própria Imagem Divina, pela qual podemos despertar e criar as condições para a vida na Imortalidade.

- (CH10-16) – “A mesma coisa acontece àqueles que saem do corpo. A alma tendo retornado a seu verdadeiro ser, o sopro se contrai no sangue, a alma no sopro, e a Inteligência após ter se purificado de seus envoltórios, pois é divina por natureza, conquista um Corpo de Fogo e percorre o espaço, abandonando a alma ao julgamento e veredito que merece.”

Aparentemente este capitulo nos induz à ideia do misterioso Corpo de Glória, que alguns autores fazem referência mas que poucos homens realmente conheceram, e que os mestras da tradição Hermética nos acenaram como possibilidade a partir de práticas purificatórias e clarificantes, da vontade pura, da conquista de uma certa Memória, e quem sabe nos torne capazes de ousar alcançar.

-(CH4-3) “Deus distribuiu a razão para todos os seres humanos, mas não a Inteligência(…), porque ele quis que Ela fosse para as almas como um prêmio a ser conquistado.”

Entendamos por Inteligência o aspecto divino e imortal, e não a comum capacidade de raciocinar.

E continuando: (CH4-4) “Ele preencheu com a Inteligência uma grande cratera (símbolo da iniciação aos grandes mistérios²), e a fez ser levada por um mensageiro (Hermes ou a Inteligência Hermética segundo Giuliano Kremmerz), ordenando-lhe que pronunciasse as seguintes palavras aos corações dos seres humanos: Batizai-vos, se puderes, nesta cratera, vós que possuis a certeza interior de que retornareis Àquele que os enviou, vós que sabeis por que  nascestes”.

Vimos que na transformação no Homem, de corpo de luz em corpo de matéria densa, que teve por consequência o esquecimento de sua verdadeira origem e a limitação das capacidades da Inteligência Espiritual – solar pela sedução dos sentidos corpóreos, se deu por um ato de amor com a natureza inferior, e a sua cura/retorno, se dará igualmente por um ato de amor, mas com novo foco ou mudança em direção ao Divino e pelo deleite na Verdade, concebendo não mais um corpo prisão, mas sim um Corpo de Fogo que possa conter sua verdadeira essência Imortal como antes.

Ir. Asiel

Notas:

1 – As traduções do clássico Corpus Hermeticum utilizadas foram as da editora Polar e Hemus, as quais serviram de inspiração para que estas reflexões fossem possíveis.

2 – Conforme interpretação da obra da Ed. Polar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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