Academias

 

Academia Hermética Kremmerziana

“MANLIO MAGNANI”

São Paulo

“Ou a vida é um rito ou não é nada”

No dia 27 de junho de 2015, durante a Assembléia Geral da Fraternidade Hermética, reunida na sede da Delegação Geral, foi eleito Presidente da Academia Hermética “Manlio Magnani” de São Paulo o irmão Asiel.

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O DESPERTAR DE HERMES

Se vocês têm tanta sorte de encontrar o tipo de vida que gostam,

também deveriam encontrar a coragem para vivê-la.

John Irving*

Quando emergirão no ser uma certa neutralidade e um certo domínio sobre o desejo, experimentar-se-á ao mesmo tempo uma situação paradoxal: de fato, todos, vivemos deixando-nos simplesmente arrastar pela volúpia do desejo, ou pelo hábito de agradar os outros, e quando estes hábitos são desmontados pela purificação e pelo trabalho sobre si, parece que tudo perca importância, já que não existe nenhum modo alternativo, segundo a própria experiência, de viver a vida. É a este ponto que em muitos manifesta-se um senso geral de desconforto e de impotência: sem a lente do desejo ou do hábito, tudo perde importância. Ou melhor, deveria-se dizer que tudo assume a mesma importância com respeito ao resto.
Então é indiferente, para o ser, fazer ou abster-se de fazer alguma coisa que antes parecia irrenunciável, e ao mesmo tempo aquilo que um tempo atrás produzia satisfação torna-se simplesmente alguma coisa de agradável, mas não de determinante ou indispensável.
O ser deve tomar conhecimento da sua morte, em um limbo: aquilo que existia antes desapareceu.
Alguém desesperadamente tenta fazê-lo voltar, porque não conhece um outro modo de viver, e também percebe que a sua existência não será mais aquela à qual estava habituado, sente-se tranquilo nas situações familiares a ele, que são cômodas e aprovadas.
Mas pode acontecer também que alguém se pergunte: existe um outro modo para se viver?

Pode acontecer de tomar conhecimento que esta morte não é uma desgraça, mas uma possibilidade, e se perceba a necessidade de construir novos critérios, desta vez escolhidos conscientemente e não suportados, já que a única outra via, que não seja esta ou o recair nos hábitos, é conviver com a indiferença e não construir nada sobre as ruínas do velho si.
É a este ponto que se tem a possibilidade concreta de viver segundo a própria lei; mas a liberdade é sem dúvida aquilo que, mais do que qualquer outra coisa, pode paralizar um homem no medo ou na indeterminação daquilo que quer.
O momento de crise, do qual se falou, certamente é conhecido por aqueles que tenham se aventurado por uma Via e, operando assim como foi aconselhado, tenham experimentado de repente que, continuando a percorrer o caminho, não poderiam mais voltar atrás; ao mesmo tempo, eles experimentaram o medo de perder a existência precedente e a tentação de acreditar de poder salvar ambas as coisas.
Nestas páginas eu gostaria de dirigir-me, justamente, a quem encontre-se nesta zona de confim – entre a vida velha e a nova – e encontra-se naquele estado de confusão ao qual muitos cedem: esta curva perigosa do caminho, na verdade é uma encruzilhada diante da qual muitos param. Todavia, isto não significa, que eu me prepare para escrever uma receita sobre que caminho pegar e como percorrê-lo, já que é necessário, simplesmente, estudar a situação: onde estamos? O que está acontecendo? Para estudar a situação, partiremos de noções já conhecidas: na substância da qual o ser humano é constituído estão presentes camadas mais sutis de matéria e camadas mais densas, as quais coexistem no indivíduo. Segundo a ciência hermética, a substância mais sutil e aquela mais densa pertencem, por sua vez, a diversos estados de existência, ou “mundos”, que podem ser individuados no mundo das Causas e no mundo material.

Repercorreremos, preliminarmente, o esquema dos quatro corpos do ser humano, para depois passar para o argumento principal destas páginas, isto é o despertar do Hermes, que conhecemos agora, como um vislumbre, através do estado hermético que começamos a experimentar através do correto e paciente trabalho sobre nós mesmos.

 

 

 

Esta união entre os dois mundos é chamada de Hahaiah “interstício” mas, no fascículo B da nossa Escola, Kremmerz fala de Hermes como mensageiro entre a dimensão celeste e a dimensão humana comum.

Vista a incomunicabilidade na qual versam o espírito humano e a sua consciência comum, como o homem pode restabelecer a própria unidade, integrando ambos os seus aspectos?
1. através do trabalho de purificação e o separando lunar, que leva o corpo lunar a dirigir o seu    olhar do saturno para si mesmo, e, então ao corpo mercurial.
2. através da obediência da Lua aos impulsos recebidos de Mercúrio, que fortalecem o estado de ser obtido no “interstício”: Hermes, entendido como zona de comunicação entre os mundos.

O ponto 1) certamente é atuável através do trabalho miriâmico, enquanto que do segundo estado nos ocuparemos mais adiante. De fato, a purificação é trabalho bem mais longo com respeito ao simples “ignorar os atrativos do mundo material”, coisa que, por si só, não levaria mais além do que uma realização ética ou moral ou, pior, de uma frustração da personalidade.
Ao invés, o separando lunar pertence, à lavagem do corpo lunar, operada através de um fogo secreto, para torná-lo um perfeito receptáculo das ordens que este recebe do corpo mercurial, que opera sobre o primeiro por irradiação; pertence também à percepção sutil do fio tênue que liga as leis naturais, através das quais manifesta-se a Lei que permeia em tudo: uma vez que o ser humano, de fato, através da encarnação física e a sua prostituição, tenha esquecido o seu lugar de proveniência, deverá aprender novamente a perceber as suas vibrações, e ter novamente consciência de si como entidade desvinculada dos caprichos da personalidade e das pulsações da carne.

Mas vamos em ordem: em um primeiro momento assiste-se a um período no qual o indivíduo redescobre si mesmo e os seus impulsos mais secretos; e isto, todavia, ainda não marca o seu ingresso no Mundo das Causas.

Nesta fase, os impulsos atávicos do homem histórico manifestam-se em sua naturalidade: o homem descobre assim querer e procurar a aproximação de elementos e ações conformes à sua natureza, ter em si uma espécie de princípio discernidor daquilo que é apto a ele (ou, melhor, daquilo que é semelhante a ele).

Agindo em conformidade com a própria natureza oculta, ele se reforça e torna-se fixo, centrado, não mais arrastado pelos eventos mas agente. Ele afastará naturalmente tudo aquilo que não é conforme a ele, e ao mesmo tempo, talvez, transcorrerá um breve período da sua vida no qual gozará com a alegria de atrair aquilo que é semelhante à sua mais íntima essência, sem procurar mais no mundo aquilo que outras pessoas ensinaram-lhe ser o justo, mas escolhendo aquilo que é justo para si.
Uma vez consciente da própria natureza, e consequentemente tendo afastado de si tudo aquilo que pode obstaculá-lo, o indivíduo lentamente será levado a fazer um passo adiante e desviar a sua atenção de si mesmo para dirigir-se ao conhecimento dos impulsos que ele recebe continuamente do seu Eu mais profundo: a este ponto, ele poderá começar a perceber a vontade e as ordens do lado mais elevado de si.
Se, de fato, é verdade que um ser lunar provisto de um estado de mobilidade realiza o que quer, também é verdade que “aquele que quer”, isto é aquele que transmite as ordens, não pode ser o homem vulgar com o seu capricho. Certamente é possível que eventos naturais possam ser previstos, ou que situações não atinentes a desejos pessoais possam sofrer modificações à vontade, todavia o homem em caminho, que tenha despertado em si algumas destas faculdades “mágicas”, notará logo que existe um limite intransponível ao seu querer: e isto porque tudo aquilo que vai contra a Lei e uma bem mais elevada Vontade não é realizado.
Mas de onde emanam esta Lei e esta Vontade? De fato, a individualidade histórica, por mais profunda e antiga do que o si atual, não é absolutamente perfeita: esta é mais ou menos evoluída de acordo com o grau de perfeição do ser – realizado em um tempo anterior ao nascimento – e, todavia, não é o Eu elevado que nós procuramos. Este Eu, sobrevivido através das épocas no núcleo histórico do homem, deve ser separado dele: o núcleo, podemos dizer que, é composto por uma parte individual e por uma parte univeresal (e é justamente esta última, que garantiu-lhe a sobrevivência além do Letes da morte da personalidade).
É justamente este o ponto que continua sendo obscuro: quanto disso que queremos emane de impulsos atávicos (mesmo sendo sempre pessoais) e quanto, ao contrário, emane de um Eu mais elevado: e este justamente é, o objeto da nossa ulterior separação.
Para compreender a diferença entre estes dois impulsos, o nosso primeiro objetivo deveria ser aquele de investigar as leis naturais, nas quais a Vontade do Ser-Uno se manifesta sem véus: de fato, o Hermes, encontra-se em harmonia profunda com a Primeira Virtude, mais do que com os impulsos individuais que sobreviveram com ele. Por outro lado, a sua harmonia com a Lei universal constitui uma ponte, que o hermetista pode ultrapassar, dirigindo-se em direção da vida universal.
Assim, pode-se tentar com o tempo a levantar o véu que separa a nossa percepção do fluxo e refluxo contínuo da Vida-Luz, que carrega consigo a razão intrínseca de cada coisa e de cada acontecimento.
Por isso será necessário que inicie-se a prestar atenção neste “Outro” (que alguns chamam Nume, outros Hermes, outros Duplo, outros simplesmente Eu), que inicialmente manifesta-se através de impulsos volitivos bem definidos, para fazer com que o ser humano, que tornou-se imaculado, possa unir-se ao esposo prometido em uma região mais elevada, na qual ambos possam coexistir: esta é, como eu já antecipei, uma zona de confim na qual os dois lados do ser humano (celeste e terreno, universal e individual) possam compenetrar-se, zona da qual se tem uma ideia com o nascimento do Hermes, separado do eu histórico.
Para se refletir sobre a natureza deste admirável renascer do homem – é oportuno descrever – através de parábolas e metáforas, porque isto é tudo aquilo que me é concedido fazer – a peculiar gestação através da qual tal Ser nasce.
De acordo com a purificação do processo, nós seremos testemunhas de dois eventos: por um lado, a voracidade e a eterna tensão de Saturno e o seu irrequieto desejo tenderão a acalmar-se; sobre esta purificação em sentido estrito, rios de tinta já esclareceram os caráteres principais, então não achamos ser necessário dizer mais nada: a prática esclarecerá tudo o que foi lido e tudo o que ainda não foi escrito.
Por outro lado, se esta primeira purificação encontrará o sucesso esperado, encontraremos um evento bem maior a esperar-nos, e tal evento abre as portas do círculo interno dos muros do Templo: quando, de fato, o corpo mais pesado cessa de impor a sua eterna influência sobre o receptor lunar, a purificação muda e torna-se trabalho de separação.
O meio para purificar o plúmbeo corpo saturnino é o silêncio hermético: e isto porque somente impondo a tranquilidade ao eterno desejo que devora tudo, o corpo lunar pode enfim tornar-se matéria virgem para a nossa Obra.
De fato, uma vez que o Lunar tenha sido identificado, serão individuados no seu interior duas camadas e funções: na primeira acepção, que nada mais é do que aquela mais baixa, o Lunar é análogo ao sistema nervoso; por isso é estimulado pelo mundo externo, do qual elabora os influxos através da própria memória plástica.
Uma segunda camada do corpo lunar começa, ao contrário, a emergir quanto mais a purificação é realizada e estabelece-se uma primeira e natural separação da sensibilidade lunar da matéria mais pesada: de fato, a este ponto, existem momentos nos quais o centro consciente do homem se polariza em uma zona mais elevada do corpo lunar, percebendo sentimentos mais nobres, ideais mais elevados e um certo senso de liberdade do mundo terreno que pode ir até instantes de paz interior e episódios de clarividência.
Este estado “misto”, isto é colocado no meio entre o trabalho de purificação e aquele de separação, está descrito graficamente na Figura 1.
Eis, então, que a liberdade parcial do corpo lunar das correntes do mundo material leva-o a desvincular-se deste influxo contínuo e a abrir-se, na sua parte mais elevada, à irradiação de uma região mais elevada, da qual este recebe os primeiros impulsos.
É aqui que estão os primeiros indícios do fato que uma vida diferente é, realmente, possível, e intui-se de que natureza esta possa ser: clarões de luz intelectual e, às vezes, memórias dormentes de outros estados de consciência vividos na infância ou durante a vida, começam a aparecer.
A sensação estranha de ter sempre conhecido este estado de ser, mas ao mesmo tempo de tê-lo esquecido e colocado de lado por toda uma vida, começa a despertar a consciência do “miste” no percorrer um caminho do qual, a este ponto, dificilmente retornará: é este o influxo de Mercúrio sobre a Lua, o Batismo – no seu significado esotérico – que preanuncia o nascimento de Hermes e marca o despertar da individualidade oculta (o Batista, precursor de Cristo).
Lentamente, o homem retira-se e obtém espaços de solidão, durante os quais uma ação mágica não será mais um dever, mas uma necessidade e um nutrimento para este “Outro”, para o Duplo que vai se despertando.

Mas também é possível, como vimos precedentemente, que experimentando este estado o homem, sem nenhuma intenção de estar sereno e abandonar-se, entre em crise, porque sente estar perdendo as certezas de uma vida escandida que viveva precedentemente: isto é o que eu tentei descrever na segunda parte desta figura, mostrando que o corpo lunar, na verdade, nesta fase não está totalmente livre de Saturno e isto, na vida cotidiana, pode converter-se em uma sensação de temor e inquietação.

ovo mercurial – Lua presa por Saturno – Lua parcialmente livre de Saturno – ESTADO ORDINÁRIO

Ir além, a este ponto, equivale a vencer sobre a contínua chamada do mundo terreno: somente operando uma separação total entre o corpo lunar e o físico, é possível provocar, de fato, a assunção no céu da Virgem, para unir-se com o Espírito Santo e dar a luz ao Cristo, que não por acaso diz-se que tenha uma natureza dupla e opere seja como homem que como mulher (cfr. Fig. 2).

Tratando, agora, o argumento principal destas páginas, eu devo dizer preventivamente – para não ser chamado de invejoso – que esta passagem do “misto” para o interstício, para ser operada, é necessário um fogo especial, que tenha condições de vencer a força de gravidade que ancora o Lunar a Saturno: de fato, em ausência de tal fogo secreto, não será possível a total separação, mas longa e difícil.
Por isso, para meditar, sobre a maravilhosa criação dos Filósofos, é necessário em primeiro lugar refletir sobre o fato que esta traz consigo uma natureza dupla, isto é aquela da matéria aquosa, que o artista pintou de branco através do fogo secreto, juntamente com o vermelho do ovo mercurial (cfr., ainda, Fig. 2). Então, este novo ser, contém em si as virtudes do Intelecto e a capacidade generativa da Mulher Celeste; e é por isso que fala-se de um estado perpétuo de polução criativa: isto é porque, a partir do momento no qual este citrino é fixado em uma cor vermelha rubi, através da nutrição adequada de Hermes criança (sobre a qual eu já falei difusamente em outro texto), o matrimônio entre o homem e o Empíreo é fortalecido.

Os dois triângulos opostos do hexagrama de Salomão representam, respectivamente, o mundo material e o mundo das Causas, que podemos entender, do ponto de vista microcósmico, como o homem vulgar (Sat + Lua) e o homem celeste, ou Inteligência huamana (Sol + Herm ).
Todavia, os dois mundos, mesmo compenetrando-se e coexistindo, podem passar uma vida inteira sem perceberem-se e, como tivemos a possibilidade de ler em muitos textos herméticos, a única maneira que temos para nos tornarmos Uno é aquela de despertar (ou “criar”, dizem algumas pessoas, mas tal termo na verdade parece-me desrespeitoso) o Único que, pode atuar como intermediário entre o Céu e a terra.

Quem tenha começado a destacar-se da condição ordinária do ser humano pode compreender bem o que eu disse agora: de fato para-se naturalmente de ocupar-se das coisas que absorvem o vulgo (focalizado somente na satisfação dos desejos saturninos) no momento no qual se percebe que a vida conduzida até então satisfaz somente uma parte do próprio Eu, o qual ao contrário é muito mais complexo e, despertando-se gradualmente, manifesta novas necessidades, atinentes a outras esferas da existência.
Então, a mudança dos próprios hábitos não será mais, um dever imposto pela autodisciplina: um dos primeiros sinais do fato que o trabalho de purificação está indo bem é justamente aquele de sentir-se inquieto em passar o tempo todo a cuidar das coisas materiais, porque percebe-se que, fazendo assim, que além de tudo não sobra tempo e uma parte de si fica, digamos assim, insatisfeita.
Porém, este “outro” do qual se tem necessidade, nós talvez ainda não o tenhamos individuado totalmente. E eis que também é possível que o aspirante, neste momento, procure sem saber como novos estímulos ou abandone-se à alegria e à naturalidade da satisfação da própria personalidade atávica que, repetimos, é somente um precursor do Eu despertado.
Porém lendo atentamente as obras de Kremmerz e dos Filósofos, notaremos que as indicações em tal sentido foram fornecidas: é necessário que este Ser encontre espaços para exprimir-se e para elevar a sua natureza, que de pessoal deve tornar-se universal (em poucas palavras, deve ser colocado em harmonia com a Lei).
Daqui derivam todos os conselhos contidos, por exemplo, nos Versos de Ouro de Pitágoras ou nos capítulos da Porta Hermética dedicados à temperança nas paixões: relendo-os agora, estes assumirão um significado diferente e, praticando-os, estes começarão a desenvolver as condições necessárias para o despertar e o crescimento daquele que, um dia, será o núcleo radiante do Ser renovado.
Por isso, o hexagrama representa também a paz, no interior do ser humano, entre os dois mundos antes contrapostos, que através do matrimônio entre o Céu e a Terra (através da sublimação da individualidade atávica, separando-a da personalidade) pacificam-se no recíproco amor, enucleando assim um novo Ser, o único, que conhece a missão encarnativa do indivíduo.
Então, a primeira fase da percepção de um mundo mais elevado, é uma consequência direta da evolução e da elevação do corpo lunar, até o ponto no qual este instrumento perfeito de percepção recebe os primeiros raios intelectivos provenientes do guardião da causa da encarnação do ser humano.
Uma vez individuada a presença sutil do Mensageiro, uma vez experimentada a sua natureza desvinculada do idealismo, do romantismo, da filantropia e de qualquer sensação lunar, se poderá com o tempo experimentar também a preponderância da Inteligência mercurial sobre a sensibilidade lunar, com plena obediência do segundo com respeito às ordens e aos impulsos que recebe.

De fato o corpo mercurial, cujos raios o nosso Hermes nos permite perceber, é mensageiro da Lei, do Ser Primeiro que explica si mesmo em toda manifestação natural, visível e invisível; e o seu Verbo, feito carne, leva o indivíduo antigo, ressurgido no homem, a agir e pensar em harmonia com esta Lei, até a total eliminação de uma distinção entre o querer do homem vulgar e do homem celeste: eis que o homem novamente é Uno.

Não me resta, agora que servilmente eu preparei aquela que não é uma receita, mas uma metáfora do trabalho a ser desenvolvido em uma vida inteira, que recomendar ao aspirante que tenha chegado até aqui outras poucas coisas: quando a luz deste amanhecer chegar lembre-se sempre com quanto ardor e esperança você a esperou, e não faça com que o entusiasmo e a satisfação deixem calar a sede de luz que o impulsionou a seguir em frente, porque ainda haverá trabalho a ser feito.
Lembre-se sempre daquelas orações, murmuradas quando você estava perdido e você só tinha a esperança na intervenção do seu Nume: esquecer-se da ajuda recebida quando tudo foi para os seus devidos lugares não é honroso. Lembre-se dos momentos nos quais você inclinou a cabeça, vencido pelas adversidades, e pareceu-lhe ver tudo dissolver-se, todos os sonhos frustrados, para enfim encontrar-se erguido acima do abismo, a salvo: lembre-se das suas vitórias e não considere-as naturais.

Em uma palavra: aprenda a humildade.
Lembre-se também que aquilo que pode impulsionar-lhe para frente é somente o seu fogo interior. Não romanticismos vãos, não esperanças e ilusões, não poesia, mas coragem, confiança e força.

Por vontade você poderá impor o silêncio às suas angústias e perguntar neutralmente aquilo que quer. Se aquilo que você pede é honesto, as suas obras serão acalmadas até a inexorável realização do seu querer – caso contrário, você sentirá imediatamente neutralizar-se o seu querer e será incapaz de perguntar sem dúvidas. Não prestará mais atenção, em seguida, aos fantasmas e às sombras que se espalharão no seu caminho para fazer-lhe duvidar: imporá a eles o silêncio, não fará penetrar nenhuma incerteza e ao contrário verá todas as coisas com olhos atentos para perceber aquilo que acontecerá, porque todas as coisas falam se você sabe escutar.
Quando as suas angústias paralizam a vontade, quando realmente não estiver em condições de abstrair-se do turbilhão lunar que lhe agarra, a força que está a sua disposição pode contudo permitir-lhe alcançar um estado ativo de fé. Antes de mais nada, mesmo por poucos minutos, tranquilize-se e acalme-se. Chame para a mente a sua ligação com o Nume, por mais flébil que possa lhe parecer, e escute. Diga-lhe estas palavras: “Eu não vou embora até não ter um sinal sobre o que eu deva fazer.” De acordo com aquilo que lhe é mais congenial (não daquilo que você deseja) hermeticamente ore para que com um sussurro na mente, uma visão, um sinal enquanto estiver caminhando, uma intuição, ele mostre-lhe a via para obter aquilo que você quer ou, se isto não pode acontecer por alguma negligência sua ou por justiça, você possa compreender a razão e aceitá-la. Depois preste atenção em todos os sinais e, se parecer que alguma coisa lhe será pedida, faça-a sem perguntas.
Saiba, porém, que qualquer uma das duas vias que você escolher, a Lei que decreta aquilo que você poderá ou não poderá ter é a mesma: não deseje aquilo que não é para você e seja sincero consigo mesmo.

Iehuiah

*ndt

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REFLEXÕES AO DESPERTAR DE HERMES

 

Iniciamos esta reflexão, proposta por Salilus sobre o belo trabalho realizado por Iehuiah referente ao Despertar de Hermes, com muita alegria no coração e na alma, pois permitiu entrar no mundo das profundas ideias herméticas e alquímicas, e para quem percorre ou percorreu o caminho, sabe muito bem que somente experimentando é possível compreender as verdades ali expostas, e como o Hermetismo só se aprende vivenciando-o, não pretendo explicar o que é inexplicável para a consciência comum, mas apenas compartilhar o que foi possível contemplar da Ibis.

Uma vez que a alma esteja mergulhada em uma roupa de matéria densa de carne, onde os 5 sentidos prevalecem, e por força a vida mundana dos desejos, vê-se submetida então como que condenada a satisfazer as necessidades deste corpo (comer, beber, dormir, reproduzir-se), nas condições impostas pela vida mundana, às quais também precisa adequar-se.

Nestas condições a alma encontra-se alienada, privada de sua anterior liberdade e autonomia, presa ao mecanismo repetitivo das necessidades, semelhante a condenação de Sísifo por Zeus, num empenho obrigatório a cumprir sem chegar a lugar algum, vive adormecida num pesadelo onde a Beatriz de Dante deixou de existir.

Em outras palavras, o homem/mulher vive sua vida no esforço de suprir os apetites do corpo e as imposições da cultura mundana, coisa que consome toda a sua energia e atenção, seja pelo sofrimento por isso imposto a alma, ou pior, pela ilusão de que ao final se merecerá uma recompensa, a esperança de alcançar a total realização dos prazeres.

Pobre homem/mulher que acreditando ser esta a única forma de experimentar a aventura da vida, continua a reproduzi-la sempre com maior requinte e empenho para que o próximo banquete seja o  mais suculento, temperado e saboroso, criando para si mesmo a própria prisão, pela qual já se habituou.

Mas se esta forma de viver não for um decreto permanente de um destino cruel, e se o barco à deriva ainda tenha um leme capaz de alterar a própria rota, e se a alma adormecida ainda pudesse despertar? Para usar uma figura de linguagem, o reino do terror só persiste e se cristaliza enquanto o alimentarmos. Então a mudança de condição é possível, tudo se altera quando mudamos o foco, mas esta transmutação exige uma ruptura com os hábitos que vem sendo solidificados pelo costume, e esta transformação ocorre com alguém que, seguindo uma via de despertar como aquela hermética, alquímica e mágica, através de práticas purificatórias e libertadoras do verdadeiro Eu, das amarras da cultura do mundo social e das ilusões dos sentidos, vivencia a experiência com um mundo que está além do senso comum, uma tomada de consciência de outros níveis de si, de esferas da criação que a torna capaz de vislumbrar um universo com infinitas inter-relações.

Ao mesmo tempo se vê diante de um dilema, já não se é mais o mesmo, pois provou o cálice de um poderoso elixir que o fez transcender a uma maior realidade, de uma ciência e conhecimento puros, instantâneos, onde a essência das formas e suas verdadeiras imagens se revelam, onde a descoberta desta consciência em si é algo que já não tem mais retorno. O dilema aqui se dá porque nos estágios iniciais do processo purificatório e da experiência do despertar, não se sabe bem o que fazer com os velhos hábitos, com a zona de conforto, e com o novo mundo recém-descoberto, ou melhor dizendo, relembrado. Morrer para a antiga vida, ou velho homem, e assumir uma nova forma de se relacionar consigo mesmo e com o mundo a sua volta? Com uma realidade que se amplia em novas possibilidades de ação, agora em relação consciente com o mundo interior?

Aceitar a nova realidade pode vir a significar uma morte e um renascer, um abrir mão de falsos conceitos, e aceitar a própria Lei interior e oculta, com a qual vamos aprendendo a nos harmonizar e interagir. Resistir a ruptura por medo ou insegurança é como querer manter vivo um defunto, e essa resistência é geradora de desequilíbrios para a nova condição, que é mais sutil e sensível e que envolve toda a nossa estrutura energética, mental, emocional e física.

Eis a zona limítrofe entre duas condições ou planos do Ser, e querer salvar uma e percorrer a outra com a plenitude que esta última pode nos oferecer é como manter os pés cimentados no concreto enquanto as asas do espírito batem forte para alçar voo. Mas como dissemos esta é uma fase de começo, e pode acontecer para quem seguir em frente, com o próximo passo, ultrapassar esta zona e descobrir que viver a nova vida integrada, possa significar poder transitar ambos os mundos, apenas com uma nova consciência. Seja como for, este é um dos momentos cruciais pois muitos param por aqui, outros caem e alguns tornam-se insensíveis para evitar uma lembrança capaz de fazer enlouquecer, pois a alma que experimentou um dedo de liberdade não se conforma mais com o medo do eu inferior.

Os 4 Corpos (resumidamente)

- Princípio Divino, Inteligência pura, vontade pura, criadora;

que emite ou coagula o

- Corpo mental inteligente, pensamento, interprete e realizador do princípio divino, vontade inteligente, mensageiro, clarividente;

que coagula ou manifesta a

- Sensibilidade, percepções e impressões entre o mundo dos sentidos e de imagem inteligente, mas que encarnada é atraída pelo corpo terreno perdendo progressivamente sua percepção dos planos sutis do Ser, esquecendo sua ligação com o Eu.

que por sua vez coagula o

- corpo denso de carne, de sensações físicas, autossatisfação, prazeres (come, dorme, se reproduz). O corpo de saturno faz uso do lunar exclusivamente para satisfazer as suas necessidades sensoriais e básicas.

Então, fazendo uso do esquema dos 4 corpos e seguindo a linha de raciocínio adotada até aqui, temos que:

A formação do ser humano que deveria ser

= Ser Integral

passa a ser fragmentada

= Homem comum, fragmentado, com a perda da consciência sutil ou de comunicar-se com ela por haver uma ruptura com o mercúrio. É como se esta ruptura paralisasse o Hermes de sua total liberdade de mensageiro entre a dimensão celeste e humana.

Como reintegrar a consciência comum e fragmentada com a consciência espiritual retomando assim a sua unidade? Segundo o exemplo e os ensinamentos dos mestres, silenciando e domando a condição saturnina , purificando e liberando o lunar  (separando lunar) aproximando-o do princípio mercurial , dar protagonismo a este para, ainda no plano humano, manifestar o princípio divino , realizando assim a verdadeira transmutação do homem comum em Nume Divino.

Certamente o método de trabalho hermético da Myriam possibilita esta integração do Ser rumo ao despertar do Hermes Interior, mensageiro alado dos deuses.

Procuremos entender de forma elementar este trabalho sem a pretensão de esgotar suas possibilidades, já que as variações são inúmeras para cada indivíduo que vivencia a estrada hermética.

Iniciando com a purificação que vai além do simples ignorar dos apetites do mundo de saturno, é necessário limpar o lunar, ou seja, liberar-se de todos os detritos causados pelas sensações e emoções, das percepções, programações, impulsos, registros (Ex: medos, ódio, rancor, desejos, ilusões, crenças, egoísmo, etc.), pois tudo isso gera e envolve uma carga energética psico física, criando barreiras de ligação entre o estado comum da consciência e o nível mercurial, ou seja, o lunar fica denso e perde-se do ritmo harmônico do Universo.

Uma vez que o processo de limpeza é iniciado ocorre um afrouxamento com os vínculos da carne e uma maior autoconsciência do lunar, que passa a identificar-se com a sua natureza mais oculta, antes refreada pelo saturno, e que agora sente poder realizar para Ser, mas este é apenas um primeiro estágio, se podemos dizer assim, deste autoconhecer-se, pois uma vez liberando-se das cargas saturninas, a lua se vê mais livre para expressar-se, e com esta liberdade ela liga-se mais ao individuo mental/mercurial, de onde aparecem também os registros atávicos do Ser Histórico os quais após revelados e conhecidos, devem ser filtrados e igualmente purificados, pois além dos registros, das memórias de aprendizados e experiências do passado, existem também as marcas de tendências negativas.

Este é de fato um momento de turbilhão e de descobertas para a consciência que segue uma via de despertar hermética, e ela se vê entre a anterior percepção limitada e confusa que havia antes de iniciar a liberação do lunar e a “nova” forma de percepção ampliada das dimensões do Ser. Se encontra aqui, de fato, entre uma encruzilhada com escolhas a fazer: seguir em frente para novos e amplos horizontes da Vida Universal, ou frear-se diante do temor de perder a própria identidade comum, de se tornar um anômalo no mundo, do apego a antigos costumes e a zona de conforto. É como uma borboleta que ao sair do casulo sentisse o receio de seguir seu caminho natural e quisesse retornar ao anterior estado – um conflito impossível de ser resolvido, a não ser continuar o processo.

Vemos aqui o quanto é importante uma boa educação e preparação hermética que permita o equilíbrio interior e exterior do praticante, a neutralidade com relação às coisas do mundo, sobriedade mental e uma postura ativa, evitando colocar-se como vítima do turbilhão, e atraindo o melhor para seu caminho, ou seja, aquilo que está em conformidade com sua verdadeira natureza e Lei. Mas como dito anteriormente, este é ainda o início do processo do desertar necessário a ser trabalhado para atingir aquele Mundo das Causas e a percepção pura do Mercurial, que conscientemente em algum momento assumirá o leme de comando, pois é por meio dele que se manifesta a vontade pura do Eu Espiritual, pois uma vez que as faculdades lunares são liberadas, com as quais pode-se interagir de outras formas com nós mesmos e com o que nos circunda, além de tomarmos consciência de nosso Indivíduo Histórico. Porém é importante reforçar que a nossa parte Histórica, por mais antiga que seja, não é o Eu luminoso a que buscamos atingir, mas está no ápice da individualidade mental, que um dia se fundirá ao Solar, mas este argumento é do campo da práxis e não cabe a teorias.

Contudo é necessário ter ciência de que em nós coabitam o homem terrestre e o homem celeste, um eu individual e outro universal, e saber integrá-los também é o exercício da grande obra, pois quando a Unidade sutil mergulhou na matéria tornando-se múltipla em suas formas, foi como se por esse meio ela pudesse contemplar a si mesma para depois retornar a anterior condição Una, mas agora com perfeita consciência de sua beleza. Em outras palavras, este seria o renascer do Hermes, cujas ferramentas estão presentes, mas que poucos conseguem realizar.

Com estas poucas frases, aqui terminam as conjecturas sobre um tema tão caro ao pesquisador e praticante do hermetismo, bem como de qualquer outra via séria de realização espiritual, cabendo-nos apenas estimular que se coloque mãos à obra, que se prove, experimente, extraindo a teoria da prática, aplicando os áureos conselhos dos versos de Pitágoras, que se encontram também diluídos na Porta Hermética, para atingir aquele estado que Kremmerz chama de Mag (um estado de consciência intermediária capaz de interagir com outros planos do Ser), e ao silenciar os sentidos, aprofundar a mente em si mesmo, buscando as respostas que o Hermes Interno com muita satisfação nos trará do centro universal para nos dar a Luz do seu Despertar.

Ir+ Asiel

 

FIGURAS

 

Homem comum: supremacia de Saturno sobre a Lua prisioneira (fixa ao ponto de gravidade).

 

 

 

 

Homem parcialmente sensível: Lua prisioneira de Saturno mas sobreposta (fixa ao ponto de gravidade).

 

 

 

 

 

Lua parcialmente livre: inicio da purificação (certa liberdade em relação ao ponto de gravidade).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mixtum: Lunar livre do ponto de gravidade, recebendo os influxos do Mercúrio. Início da manifestação do Hermes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Homem Integral: O centro de comando é a vontade Solar. Hermes é plenamente manifesto. O ponto de gravidade não é mais o Saturno.

Alma

Espírito – fogo secreto – centro de comando

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