Academias

Academia Hermética Kremmerziana

“MANLIO MAGNANI”

São Paulo

“Ou a vida é um rito ou não é nada”

No dia 27 de junho de 2015, durante a Assembléia Geral da Fraternidade Hermética, reunida na sede da Delegação Geral, foi eleito Presidente da Academia Hermética “Manlio Magnani” de São Paulo o irmão Asiel.

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Pietro Negri: SUB SPECIE INTERIORITATIS

Coelum…, nihil aliud est quam spiritualis interioritas.

(GUIBERTUS – De Pignoribus Sanctorum IV, 8).

Aquila volans per aerem et Buso gradiens per terram

est Magisterium.

                                                                            (M. MAYER – Symbola Aureae Mensae duodecim Nationum, Francoforte, 1617, p. 192).

 

São transcorridos muitos anos desde quando tive, pela primeira vez, consciência da imaterialidade. Mas, não obstante o fluir do tempo, a impressão que desta provei foi tão intensa, de maneira potente, que permaneceu até hoje na memória, por mais que seja possível comunicar e reter nela certas experiências transcendentais; e eu tentarei, hoje, expressar, humanis verbis, esta impressão, voltando a evocá-la desde os íntimos recessos da consciência.[1]

O sentido da realidade imaterial a mim se manifestou repentinamente, sem precedentes, sem nenhuma causa aparente ou razão determinante. Há cerca de quatorze anos me encontrava um dia, parado e em pé, sobre a calçada do palácio Strozzi em Florença, conversando com um amigo; não recordo de que nos ocupávamos, mas provavelmente de algum argumento concernente ao esoterismo; coisa sem importância em razão da experiência que tive. Era um dia similar aos outros, e eu me encontrava em perfeita saúde de corpo e de espírito, não estava cansado, nem excitado, nem ébrio, livre de preocupações e aborrecimentos. E, num instante,  enquanto falava ou escutava, aqui que senti diferentemente: a vida, o mundo, todas as coisas; me dei conta subitamente de minha incorporeidade e da radical, evidente, imaterialidade do universo; me dei conta de que meu corpo estava em mim, que todas as coisas estavam interiormente em mim; que tudo se referia a mim, ou seja, o centro profundo, abissal e obscuro do meu ser. Foi uma inesperada transfiguração; o sentido da realidade imaterial, despertando-se no campo da consciência, e articulando-se com o habitual sentido da realidade cotidiana, maciça, me fez ver o todo abaixo de uma nova e diferente luz; foi como quando, por um repentino rasgo em um denso véu de nuvens, passa um raio de sol, e o pavimento ou o mar abaixo transfigurado subitamente em uma leve e fugaz claridade luminosa.

Sentia ser um ponto indescritivelmente abstrato, adimensional; sentia que nele estava interiormente o todo, em uma maneira que não havia nada de espacial. Foi a reviravolta completa da comum sensação humana; não só o eu não tinha mais a impressão de estar contido, no entanto localizado, no corpo; não só havia adquirido a percepção de incorporeidade do próprio corpo, mas sentia o próprio corpo dentro de si, sentia tudo sub specie interioritatis. Para entender bem, é necessário aqui procurar assumir as palavras: dentro, interno, interior, em uma acepção ageométrica, como palavras aptas, ou melhor, para expressar o sentido da inversão de posição e de relação entre corpo e consciência; que, de resto, falar de consciência contida no corpo é tão absurdo e impróprio como falar de corpo contido na consciência, dada a heterogeneidade dos dois termos da relação.

Foi uma impressão poderosa, esmagadora, avassaladora, positiva, original. Manifestou-se espontânea, sem transição, sem aviso prévio, como um ladrão na noite, deslizando-se para dentro e engrenando-se com o habitual e comum modo de sentir a realidade; aflorou rapidamente afirmando-se e permanecendo claramente, de modo tal a consentir-me vivenciá-la intensamente de forma segura; depois se desvaneceu, deixando-me perplexo. “Era uma nota do poema eterno aquilo que eu sentia…“; e, ao evocá-la novamente, sinto pairar no ar agora, no íntimo da consciência, a sua hierática solenidade, sua calma e silenciosa pujança, a sua pureza estelar.

 

***

     Esta foi minha primeira experiência da imaterialidade.

Ao expô-la, tenho buscado somente reproduzir fielmente a minha impressão, a custa também de incorrer eventualmente e precisamente em não ser devidamente atento as normas de uma precisa terminologia filosófica. Posso também reconhecer que a minha competência filosófica não estava e não está a altura destas experiências espirituais, e posso também admitir que, desde o ponto de vista dos estudos filosóficos, seria desejável que destas experiências fossem feitos partícipes aqueles, e aqueles somente, que tiveram grandes méritos filosóficos; mas expressada a aflição, é preciso reconhecer que o ponto de vista dos estudos filosóficos não é o único admissível, e que o espírito sopra onde quer, sem ter especial conta da capacidade filosófica.

No caso específico da minha experiência pessoal, a passagem aconteceu independentemente de toda especulação científica ou filosófica, de todo trabalho cerebral; e sou ao contrário propenso a deduzir que esta independência não tem sido fortuita e excepcional. Não parece na verdade que a especulação racional possa conduzir mais além de uma simples abstração conceitual, de caráter mais que nada negativo, e incapaz de sugerir ou provocar a experiência direta vivida, a percepção da imaterialidade.

O modo habitual de viver se baseia sobre o sentido da realidade material, ou, se assim desejar, sobre o sentido material da realidade. Existe aquilo que resiste, o compacto, o maciço, o impenetrável; as coisas são enquanto existem, ocupam um lugar, fora de, e também dentro de nosso corpo; esses são, por assim dizer, tanto mais reais quanto mais sólidos, impenetráveis, inatacáveis. O conceito empírico e ordinário de matéria, como um rés que por si mesmo ocupa um lugar, que se toca e oferece resistência ao tato, é uma função da via corpórea; as necessidades da vida em um corpo sólido, denso, pesado, habituado a apoiar-se sobre o terreno solido e estável, geram o habito de identificar o sentido da realidade com este modo particular humano de sentir a realidade, e faz nascer a convicção apriorística de que ela mesma seja a única possível e que não há e não possam haver outras.

Não é portanto sem embargo verdade que estes caracteres típicos da realidade material se vão gradualmente atenuando e desvanecendo quando a matéria sólida se passa a líquida, a fluídica e a gasosa; e a análise científica conduz, através dos sucessivos estados da desintegração molecular e atômica, a uma concepção da matéria bem distante daquele conceito empírico primitivo, que parecia um dado tão seguro e imediato da experiência. A universal desmaterialização dos corpos corresponde necessariamente, passando da ciência à filosofia, a abstração conceitual idealista, a resolução do todo no eu; mas o reconhecimento conceitual da espiritualidade universal não conduz a conquista ou a aquisição efetiva da percepção da realidade espiritual, e é possível seguir uma filosofia idealista continuando a ser cegos espiritualmente tanto como o mais grave materialista; é possível dizer-se filósofos idealistas e acreditar ter tocado o apogeu do idealismo através da simples e laboriosa conquista conceitual, apenas excluindo ou não pensando de jeito nenhum na possibilidade de uma percepção ex imo; é possível confundir, e pensar que se deva confundir, qualquer epifania espiritual com um simples ato do pensamento.

Naturalmente com semelhantes pontadas na cabeça se pode seguir um trecho e subir para o idealismo absoluto sem outro efeito que aquele de arrancar qualquer ramo sobre a cabeça dos colegas em ascensão. Verdadeiramente não vale a pena olhar com tanto desdém para os velhos filósofos positivistas, vítimas pobres sim mas honestas de uma simplificadora aceitação do critério empírico da realidade material! Tolher este sentido empírico materialista da realidade e seu caráter de unicidade, de positividade e de insubistituibilidade, não significa em verdade remover todo valor, senão somente definir seu valor. O mesmo segue tendo direito de cidadania no universo, ao lado e junto de outros eventuais modos de sentir a realidade.

Alcançada a abstração idealista conceitual, não é pois o caso de entoar os cantos de vitória. E para a existência e a entrada no campo do sentido da realidade imaterial, não se segue ao mesmo tempo, compreendamos bem, que se tenha que inverter a posição, conciliando ao novo sentido da realidade os privilégios do antigo, exaltando-o às expensas do outro. A verdade de um não leva à falsidade do outro; a existência de um não exclui a coexistência do outro. Ilusório e arbitrário é acreditar que não haja e não tenha que existir senão um só modo de sentir a realidade; se o critério empírico da realidade material se reduz fatalmente em última análise a uma simples ilusão, não obstante esta modalidade de consciência, que se incide sobre uma ilusão, existe efetivamente; tanto que sobre este sentido se apóia a vida de inumeráveis seres, também quando este critério venha superado conceitualmente, mesmo quando seja superado espiritualmente, engolido pelo sobrevivente sentido da imaterialidade.

Minha experiência, por mais que fugaz, me deu a demonstração pratica da possível, efetiva e simultânea coexistência das duas percepções da realidade, a percepção espiritual pura e aquela ordinária corpórea, por mais que contraditórias ao olho da razão. É uma experiência elementar da qual não é certamente o caso de orgulhar-se; porém é sempre uma experiência fundamental que recorda aquela de Arjuna no Bhagavad-gîtâ e aquela de Tat no Pimandro; é sem embargo sempre uma primeira percepção efetiva e direta daquilo que os cabalistas chamavam o santo palácio interior, e os Filaletes o oculto palácio do Rei, e também o que Santa Teresa chamava o castelo interior. Por quanto elementar, é uma experiência que inicia uma vida nova, dupla, o dragão hermético coloca as asas e se converte em anfíbio, capaz de viver na terra e de desapegar-se da terra.

Mas por que, se dirá, habitualmente se é surdo a esta percepção, e eu mesmo que escrevo não me havia dado conta antes dela? Por que se dissipa? E a que serve? E não é talvez melhor não suspeitar nem mesmo da existência de tão perturbadores mistérios? E por que não se ensina como se faz para obter esta impressão? E é justo que alguns poucos disso sejam partícipes e os outros não?

Não é fácil responder detalhadamente a estas e outras perguntas que se possam formular a propósito. Quanto a surdez espiritual, me parece que essa provenha ou dependa do fato que habitualmente a atenção da consciência é totalmente fixada sobre o sentido da realidade material, que qualquer outra sensação passa inadvertida. É portanto uma questão de ouvido: o tema melódico desempenhado pelos violinos  que exige habitualmente toda a atenção e o profundo acompanhamento dos violoncelos e do contrabaixo passa inadvertido. Talvez, também, é a monotonia desta nota, baixa e profunda, que a subtrai da percepção comum: e eu recordo bem o assombro provado, similarmente, quando uma vez, na montanha, sobre um grande prado florido, o zumbido surdo e igual produzido por inumeráveis insetos me percorreu o ouvido e de repente, quase por casualidade, ou melhor, só de repente e sem razão aparente tornei-me consciente daquele zumbido, de certo preexistente a minha inesperada percepção.

A resposta, como se vê, não consiste que em uma comparação com fenômenos similares, e provavelmente não satisfará os leitores. Assim pois temo fortemente que às outras perguntas não poderei das respostas satisfatórias; e por isso porei fim a este escrito, o qual é agora tempo de fazer, não fosse que por discrição

 

Traduçao do Ir+2369

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Comentario do Ir+ 2660

 

Primeiramente, os poucos textos de Reghini que eu li são muito bons de lerem. São mais compreensíveis. Não é uma leitura chata. São mais degustáveis. Acho que isso já foi falado. Mas vale a pena citar novamente.

Diversos são os temas aqui expostos que são de suma importância a serem tratados. Este aqui não é diferente. Sub Specie Interioritatis. A tradução crua diz: Sob a forma de interiorização. Contudo, lendo o próprio texto, que já é bem claro, já pode nos mostrar  todo o contexto exprimido por Reghini.

A particularidade deste texto é justamente o que o Reghini traz à tona em relação a sua própria experiência vivida, em palavras dele “e eu tentarei, hoje, exprimir, humanis verbis, esta impressão, evocando-a novamente dos íntimos recessos da consciência” a sensação de realidade imaterial.

A parte material, profana, creio todos aqui já saberem e serem bem “expertos”, então, vamos contextualizar a outra parte.

Pelo menos para mim, todas as sensações de um “outro mundo” que eu vi/ouvi relatar, são de objetos se mexendo, voando, alterações no tempo como por exemplo fazer uma chuva cair, passar um vento, materializações de coisas, projeções astrais e outras coisas.

Mas é a primeira vez que eu vejo um relato da impressão de uma pessoa quanto a imaterialidade.

Bem, e por diversas vezes lemos da separação dos corpos, do encontro com o seu eu-interior de uma forma bem poética e fantasiosa, mas é a primeira vez que eu leio que alguém tenta exprimir, o seu encontro com o seu eu-interior de forma mais real possível.

Vamos aos pontos interessantes deste texto:

  • Não há palavras para descrever a experiência vivida. Ela é pessoal e intransferível. Isso já nos remente a tal da questão de praticar, praticar e praticar para ter a sua própria experiência.
  • Não é preciso estar entorpecido, com fome, dentre outras coisas para se ter esse tipo de vivência. É preciso estar equilibrado.
  • A minha leitura da sensação impressa por Reghini é uma sensação de interiorização (ou seja, você está “vestindo” a capa humana) e também de unificação com tudo o que existe e está sendo vivido. Desculpe, se Reghini tenta exprimir em palavras da melhor maneira que ele pôde, imagina eu, ainda mais tentando resumir a vivência dele. Reghini diz: “Era uma nota do poema eterno aquilo que eu sentia”. Sem palavras, sem palavras.
  • Essa vivência dele, foi de uma forma positiva, sem transições, sem pré-avisos, aflorada rapidíssima e permaneceu firme, vivente, de um modo que permitiu Reghini vive-la intensamente e percebê-la com certeza para depois sim, desaparecer. Assim mostrou o seu poder e sua pureza. (o seu eu-interior. E já que ele se sentiu unificado com tudo e com todos, por que não dizer, Deus?)
  • “O espírito sopra onde ele quer” e não leva em conta a capacidade filosófica, ou os estudos que se faz.
  • Após, Reghini explora as diferenças das vidas materiais e imateriais. A verdade de um não leva a falsidade do outro; a existência de um não exclui a coexistência do outro. É ilusório e arbitrário acreditar que não exista, e não deva existir, senão um modo de sentir a realidade;

E no fim deste texto, existem algumas máximas, que merecem serem lidas, já que Reghini coloca elas muitíssimo bem:

  • A minha experiência, por mais que tenha sido fugaz, deu-me a demonstração prática da possível efetiva simultânea coexistência das duas percepções da realidade, a percepção espiritual pura e aquela comum corpórea, por mais que sejam contraditórias para o olho da razão. É uma experiência elementar sobre a qual não é certamente o caso de sentir-se orgulhoso; nem de servir-se para fabricar um novo sistema filosófico ou para fundar uma nova religião; mas é sempre uma experiência fundamental que recorda aquela de Arjuna na Bhagavad-gita e aquela de Tat no Pimandro; é sempre uma primeira percepção efetiva direta daquilo que os cabalistas chamavam o santo palácio interior, e Filaletes o palácio oculto do Rei, e também aquilo que Santa Teresa chamava o castelo interior. Por mais elementar que seja, é uma experiência que inicia uma vida nova, dupla; o dragão hermético coloca as asas e torna-se anfíbio, capaz de viver na terra e de destacar-se da terra.” Reafirmo o que Reghini diz: É o início de uma vida nova, dupla; O dragão hemértico coloca as asas e torna-se anfíbio, capaz de viver na terra e de destacar-se na terra.
  • E logo no próximo parágrafo, Reghini continua, mais uma máxima: “Mas se dirá, por que, habitualmente somos surdos para esta percepção, e eu mesmo que escrevo não a tinha percebido antes? Por que desapareceu? E serve para que? Talvez não seja melhor não suspeitar nem mesmo da existência de mistérios tão perturbadores? E por que não se ensina como se faz para obter esta impressão? E é justo que alguns poucos sejam partícipes dela e os outros não?” Reghini não prolonga mais com estes assuntos, já que pode não pode dar respostas certas para todos.
  • Algumas frases podem ser ditas aqui, que podem responder a algumas estas perguntas, não para todos, como:
  • Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda de que eles as pisem com os pés e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem.” — Bíblia, Novo Testamento, Livro de Mateus, Capítulo 7, versículo 6.
  • O mundo é duplo; Sempre haverá uma coisa boa e uma coisa ruim. Sempre haverá um mundo físico e um mundo astral. A comunhão destes dois mundos é talvez, o ideal.
  • O poder existe e as pessoas podem usa-lo para coisas erradas; Inclusive, vivemos isso muito bem com os nossos atuais governos.
  • Hoje existe um movimento das pessoas saindo das grandes cidades, fugindo do caos, e indo para o interior, mais isoladas, procurando lugares mais calmos, interiorizando-se.

Aqui também já falei demais. E também são impressões minhas, que posso até estar errado em meu modo de ver. Infelizmente não tenho todas as respostas para estas perguntas magnas. Então aqui eu finalizo este texto.


[1] Pietro Negri è um pseudónimo de Arturo Reghini que o filósofo pitagórico usou como diretor da revista UR imprimida na Itália em 1927.


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