Academias

Academia Hermética Kremmerziana

“MANLIO MAGNANI”

São Paulo

No dia 27 de junho de 2015, durante a Assembléia Geral da Fraternidade Hermética, reunida na sede da Delegação Geral, foi eleito Presidente da Academia Hermética “Manlio Magnani” de São Paulo o irmão Asiel.

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A SERPENTE EMPLUMADA

D. H. Lawrence é um homem livre. Quem seguiu a sua obra tem a sensação precisa de um homem que surge e que está consigo mesmo. É livre sobretudo diante dos seus leitores, não tem preocupações de prazer nem com uns, nem outros, e nem mesmo aquela de ser compreendido. Não explica – vai pelo seu caminho sozinho com a sua visão – sem distrair-se. Ele está sozinho com a sua visão, e esta, para aqueles que conseguem entendê-la, apresenta-se vivente e íntegra. E as suas criações possuem uma plenitude mágica.

A “Serpente Emplumada”[1] talvez seja a mais poderosa e completa entre as obras de Lawrence. Nesta não existem dissertações ou argumentações, existe ao contrário uma atmosfera psíquica que nos faz viver na alma de um país, onde ainda existem forças que já desapareceram em outros lugares e que passaram a existir de uma outra maneira.

Trata-se do México moderno – tão pouco conhecido pela maior parte das pessoas. O México é um país onde as forças ocultas aborígenes resistiram à penetração da raça dominadora e permaneceram ao seu lado, sem serem dominadas. Os acontecimentos que se desenvolveram nos últimos três anos – depois que o livro já tinha sido escrito – dão ao próprio livro quase um valor profético. A luta e a perseguição anticristã dos últimos tempos – apesar do verniz maçônico-anticlerical de imitação francesa – na realidade possuem um significado bem diferente daquele que à primeira vista pode-se acreditar. É a velha alma pagã que surge contra o culto cristão; são os antigos Deuses do México que despertam do seu sono secular e reclamam o seu povo; e em Quetzalcoatl, é a “serpente emplumada” que volta a manifestar-se.

Propondo o livro àqueles que se interessam pelos eventos assim como são dramatizados pela arte de Lawrence, aqui nos limitamos a citar um episódio culminante, não privado de elementos que possuem um valor efetivamente esotérico.

O velho sangue indiano que impregna a raça mexicana se desperta e torna-se consciente primeiro em uma elite de pessoas que tendo recebido uma educação europeia vivem de uma maneira ainda mais forte o contraste. Os outros os seguem. Entra-se em uma ordem de verdadeira evocação. Primeiro de maneira oculta e na noite ouve-se o tambor que chama os adeptos. O ritmo do tambor possui um caráter mágico com relação ao despertar do psiquismo; e, em certas formas, uma via para alcançar o êxtase e então o contato com as forças supersensíveis.

Em torno dos adeptos, reúne-se silenciosamente a multidão, e a “saturação” cresce junto ao ritmo martelante até que um hino é pronunciado, com o valor, sobretudo, de fórmula mágica, de mantra. E então o antigo Deus Quetzalcoatl se manifesta, para retomar o contato com o sangue da sua gente. No livro, a sua mensagem é dada, com as seguintes palavras:

 

Nas terra do Ocidente

Em paz, para lá da cauda quente e brilhante do Sol,

No silêncio aonde nascem as aguas,

Dormia eu  Quetzalcoatl.

Na gruta chamada Olho Escuro,

Vendo através do Sol como através de uma janela.

É lá que moro. Lá, onde brotam as nascentes E os ventos se formam.

Das águas da morte

Voltei a erguer-me e vi um cometa.

Senti um sopro no rosto. O sopro dizia: «Vai!»

E eu vim.

 

Quetzacoatl procede na sua teofania, e declara assim a própria natureza:

 

Sou Quetzalcoatl vivo.

Nu me ergui do abismo.

Do ponto a que chamo Pai.

Nu percorrí o longo caminho que se estende do

Céu, tendo passado pelo lugar onde dormem os Filhos de Deus.

Ergui-me das profundezas do céu como se fosse uma águia.

Ergui-me das entranhas da terra como se fosse uma serpente.

Sou conhecido de tudo o que existe no espaço entre o céu e a terra.

Ainda assim, sou o ponto interior da estrela invisível.

E esta é uma espécie de lampião nas mãos do Deus Desconhecido.

Para além de mim, existe u m Senhor que é terrível e maravilhoso ao mesmo tempo.

e que estou condenado a nunca fitar,

Contudo, antes de se unir à Màe-Espaço para me gerar, foi no seu ventre que vivi.

Agora, encontro-me sozinho na terra e esta pertence-me.

São minhas as raízes que se ocultam no caminho escuro da serpente.

Do mesmo modo, os ramos, as estradas do céu e as aves, tudo isto é meu.

Porém. a centelha que em mim arde pertence a todos os seres, a todas as coisas.

Conhecem-me os pés dos homens e as mãos das mulheres.

Conhecem-me os joelhos, as coxas, os ventres, as entranhas onde nasce

a força e as sementes que só graças a mim se acendem.

A serpente que, vinda da escuridão, se enrosca na minha mão direita,

beija-vos os pés com a sua língua de fogo,

Ao mesmo tempo que transmite o seu poder aos vossos tornozelos e pernas,

inflama os vossos joelhos, pernas e rins, e acaba por se enroscar nas vossas bamgas.

Pois sou Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada,

E só me encontro convosco quando a serpente que em mim habita

se deita a descansar nos vossos ventres.

Eu, Quetzalcoatl, a águia dos ares, agito as asas e dou-vos visões. Insuflo-vos o peito com o meu sopro

E é nos vossos ossos que construo o ninho onde poderei descansarem paz.

Sou Quetzalcoatl, o Senhor das Duas Vias.

Lentamente uma sensação de alívio difunde-se no povo: “Quetzalcoatl veio”. A divindade originária volta a viver nele, removendo a força do culto estrangeiro e novo que do externo tinha subjugado a alma mexicana. É a hora da partida do Deus cristão. As imagens, tiradas da igreja, com o rufo do tambor, enquanto se acende o fogo do auto da fé, são-lhe restituídas. O México reencontra e reafirma a própria alma: este será o princípio da regeneração, o fim dos eventos trágicos da sua vida nacional.

Mas também existe , em um plano superior, a urgência do empurrão misterioso que impulsiona os homens: “Vá, e quando você for, não poderá mais voltar para trás”. A mensagem de Quetzalcoatl fala aos homens da autoconsciência transcendente. Lendo com sentido místico e conhecimento oculto a mensagem que segue, de fato encontramos expressões com uma singular inspiração. Ei-la na sua entoação profética:

A grande Serpente enrola e desenrola o plasma das suas espirais, aparecem estrelas e desaparecem mundos: e nada mais além do mudar e estender-se do plasma.

 “Eu existo, sempre” ele diz no sonho.

Como um homem no sono profundo não conhece, mas existe, assim existe a Serpente com as espirais do cosmo vestida com o seu plasma.

Como um homem no sono profundo não tem amanhã, nem ontem, nem hoje, mas só Existe, assim é a clara, longa Serpente do cosmo eterno, agora e para sempre agora.

Agora, e só agora, e para sempre agora.

Mas surgem e desaparecem sonhos no sono da Serpente.

E surgem mundos como sonhos e desaparecem como sonhos.

E o homem é um sonho no sono da Serpente.

E só no sono sem sonhos ele respira: “Eu existo”.

No agora sem sonho, EU EXISTO.

Os sonhos surgem como devem surgir e o homem é um sonho que surgiu.

Mas o plasma sem sonhos da Serpente é o plasma de um homem, do seu corpo, da sua alma, do seu espírito: unidos.

E o sono perfeito da Serpente EU EXISTO é o plasma de um homem que é inteiro.

Quando o plasma do corpo e o plasma da alma e o plasma do espírito são um, na serpente EU EXISTO.

Eu existo agora.

 “Não existia” é um sonho e “existirá” é um sonho, como dois pés pesados distintos.

Mas agora, eu existo.

As árvores colocam para fora as folhas no seu sono, e a floração emerge dos sonhos, no puro “eu existo”.

Os pássaros esquecem o peso dos sonhos, e cantam alto no agora, eu existo, eu existo.

Porque os sonhos possuem asas e pés, viagens a serem realizadas, e esforços a serem feitos.

Mas a Serpente cintilante do Agora, indivisa e perfeitamente envolvida em espirais não possui pés nem asas.

 

Os homens da Serpente poderão receber a mensagem?– A resposta não está no livro[2] – com profundo senso artístico o autor nos deu uma visão capaz de viver em nós e transcendente o próprio livro. Os eventos do romance nos dão muito para poder sentir a alma de um povo na sua interioridade. São “estados” que nas nossas almas ainda não estão inteiramente esquecidos e, em retorno consciente, sentimos que penetramos na nossa própria interioridade. É um passado que justifica e explica o nosso presente.[3]

Leo – Krur, 1929.


[1] Quetzalcoatl, Deus Serpente, entrou no México à frente de um grupo de estranhos, os Toltecas, vestidos com longas túnicas de linho negro. O povo deu-lhes boas-vindas, e ele tornou-se o rei da Cidade dos Deuses, Tollan. Neste tempo, as maçarocas de milho eram tão grandes que um homem não conseguia transportar mais do que uma cana de vez, o algodão com tantas cores, que não necessitava ser tingido. Uma grande variedade de pássaros de penas coloridas invadiam os ares com suas canções, e abundavam o ouro, a prata e as pedras preciosas. Quetzalcoat introduziu uma religião que apregoava paz para todos os homens. Ele era totalmente puro, inocente e bom. Nenhuma tarefa era humilde para ele. Ele até varria os caminhos para os deuses da chuva, para que eles pudessem chegar e fazer chover.

Com o tempo, seu irmão esperto , Tezcatlipoca, invejoso da sua felicidade, juntamente com mais dois feiticeiros Huitzilopochtli e Tlacahuepán viraram-se contra Quetzalcoat e seu povo. Tezcatlipoca, ficava furioso com tanta bondade e perfeição. Juntamente com os dois feiticeiros, ele decidiu lançar um feitiço negro em Quetzalcoatl e transforma-lo em um ancião preocupado apenas com seu prazer.

- Vamos dar a ele um corpo e cabeça humanos, disse. E mostraram a Quetzalcoatl seus novos traços em um espelho de fumaça. Quando Quetzalcoatl olhou no espelho e viu sua face, foi possuído por todos os desejos terrenos que afligiam a humanidade. Gritou de horror. “Já não posso mais ser rei. Não posso aparecer assim diante do meu povo”.

Ele chamou o coiote Xolotl, que era tão próximo dele quanto sua própria sombra. O coiote fez para ele um manto de plumas verdes, vermelhas e brancas, do pássaro Quetzal. Também fez uma máscara turquesa, uma peruca e uma barba de penas azuis e vermelhas. Pintou de vermelho os lábios do rei, de amarelo sua testa e pintou seus dentes para que parecessem os de uma serpente. E assim Quetzalcoatl ficou disfarçado de Serpente Emplumada.

Mas Tezcatlipoca tinha pensado em uma nova peça para pregar no irmão. Disfarçado de velho, visitou o irmão, e preparou um remédio que, como assegurou a Quetzalcoat, o embriagaria, apaziquaria o seu coração e iria curar seu problema. Com um pouco de boa vontade, Quetzalcoatl, bebeu o remédio e assim que o saboreou, bebeu cada vez mais até ficar embriagado e choramingando. O que ele havia bebido era o vinho feito de pita, chamado a “Bebida dos Deuses”. Quando ele estava em esturpor, Tezcatlipoca persuadiu-o a fazer amor com sua própria irmã, Quetzalpetatl.

Quando Quetzalcoatl acordou, ficou amargamente envergonhado com o que tinha feito. “Este é um mau dia”, disse e resolveu morrer. Quetzalcoat ordenou a seus servos que fizessem uma caixa de pedra, e ficou dentro dela quatro dias. Depois se levantou e pediu aos servos para encher a caixa com todos os seus maiores tesouros e depois selá-la. Foi até o mar e lá colocou seu manto de plumas de Quetzal e sua máscara de turquesa. E então pôs fogo em si mesmo e queimou até que só restassem cinzas na praia. Dessas cinzas, aves raras se levantaram e voaram para o céu.

Quando Quetzalcoat morreu, a aurora não se levantou por quatro dias, porque Quetzalcoat tinha descido para a terra dos mortos com seu duplo, Xolotl, para ver seu pai, Mictlantecuhtli. Ele disse a seu pai, o Senhor dos Mortos, “Vim buscar os preciosos ossos que o senhor tem aqui para povoar a Terra.”

E o Senhor dos Mortos respondeu: “Está bem”. Quetzalcoat e Xolotl pegaram os ossos preciosos e voltaram à terra dos vivos. Quando a aurora se levantou outra vez, Quetzalcoat borrifou seu sangue sobre os ossos e deu-lhes vida. Os ossos se transformaram nas primeiras pessoas. Quetzalcoat ensinou à humanidade, muitas coisas importantes. Ele encontrou o milho, que as formigas tinham escondido, e roubou um grão para dar ao povo que tinha criado para que eles pudessem cultivar seu próprio alimento. Ensinou-lhes a polir o jade, a tecer e a fazer mosaicos. O melhor de tudo, ensinou-lhes a medir o tempo e a entender as estrelas, e distribuiu o curso do ano e das estações.

Finalmente chegou o tempo de Quetzalcoat deixar os humanos cuidarem-se de si mesmos. Quando a aurora surgiu, no céu apareceu a estrela Quetzalcoat, que conhecemos como Vênus. Por essa razão, Quetzalcoat é conhecido como Senhor da Aurora. Alguns dizem que Quetzalcoat partiu para o leste em uma jangada de serpentes, na qual se sentou como numa canoa, viajando em direção a Tlapallán, o país misterioso de onde tinha vindo e um dia retornará.

[2] D.H. Lawreence -  A SERPENTE EMPLUMADA – Publicações Europa-America, Lisboa.

[3] Manlio Mangnani na sua obra “Supremo Vero” desejava para toda a América Latina o despertar de um sentimento “civil, intelectual e moral” que nascesse da mais antiga e profunda consciência espiritual dos seus povos e por esta razão em alguns de seus escritos fala sobre o “hemisfério da cruz do sul” como sendo o continente cujo futuro será marcado por uma profunda mudança e citou a obra de D. H. Lawrence “A serpente emplumada” usando algumas expressões significativas como esta: “Pois bem, vejo uma realidade imensamente diferente daquela aparente e extraordinariamente interessante. Para falar sobre ela não servem as palavras dos vocabulários usados agora naqueles países por aqueles homens.

No íntimo, no profundo uma agitação da alma uma espécie de fermentação da qual deve ou procura surgir uma coisa nova, pressentida mas ainda não conhecida, o trabalho de um parto não anunciado, uma agitação trêmula à espera de alguma coisa que na linguagem latina poderia-se dizer: “eum qui venturis est” porém sem poder saber nada sobre aquele “eum”. Refletindo-se aquele estado profundo da alma na mente e nos sentidos e nos sentimentos produz as idiossincrasias externamente visíveis.

Aquelas passam ou passarão; mas do trabalho interno surgirá o acontecimento que venturus est, acontecimento de ordem espiritual, ou pelo menos virá a sua preparação para acolher aquele acontecimento se o ponto vistoso do seu manifestar-se estiver em outro lugar.

O poeta norte-americano D. H. Lawrence descobriu esta verdade profunda estudando o México. Ele canta:

 

Nas terra do Ocidente

Em paz, para lá da cauda quente e brilhante do Sol,

No silêncio aonde nascem as aguas,

Dormia eu  Quetzalcoatl.

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Das águas da morte

Voltei a erguer-me e vi um cometa.

Senti um sopro no rosto. O sopro dizia: «Vai!»

E eu vim.

………………………….

Sou Quetzalcoatl vivo.

Nu me ergui do abismo.

Do ponto a que chamo Pai.

Nu percorrí o longo caminho que se estende do

Céu, tendo passado pelo lugar onde dormem os Filhos de Deus.

Ergui-me das profundezas do céu como se fosse uma águia.

…………………………………………………………

Mas eu sou a estrela interiior invisível,

E a estrela é uma lâmpada na mão do

Desconhecido Movedor”.

 (….)

Pois bem, “a estrela inferior invisível…lâmpada na mão do Desconhecido Movedor” quando se tornará outra vez visível o será na única forma possível, aquela de uma nova luz mística capaz de ser “princípio fixo, certo, não discutível” por toda a duração de um novo ciclo, base e justificação, seja na ordem civil que intelectual e moral”.

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O CAMINHO DA SERPENTE ALADA E AS LEIS HERMÉTICAS

 

Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]“.

“Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto reto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.

E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora”

Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

 

A partir de materiais básicos, oriundos de culturas ancestrais, poetas e escritores elaboram os mitos, dando-lhes nova roupagem, segundo culturas e épocas diferentes. O mito da serpente, tão antigo na sua trajetória existencial e, ao mesmo tempo, tão moderno no seu significado de renovação, evidencia-se em A Serpente Emplumada − colhido da tradição do povo asteca − mostrando que o mito encarna o ideal de todo ser humano: a conquista da individualidade.

Nese processo de busca, primeiro ocorre o psíquico, e depois surge o espiritual propriamente dito. Ele está dividido em diferentes etapas, cujo símbolo da primeira é a Uroboros – a serpente das origens – que representa a situação psíquica original em que prevalece a fusão do ego com o inconsciente. O percurso em busca da Totalidade é uma aventura de transformação do ego que exige ruptura, recolhimento, renúncia e torna o indivíduo um herói, isto é, um ser humano competente, corajoso, persistente, humilde e útil à sociedade. Dessa forma, o arquétipo do herói incorpora as mais poderosas aspirações, revela a maneira pela qual elas são idealmente compreendidas e realizadas, representando a vontade e a capacidade de procurar e suportar repetidas transformações em busca do humano possível, tanto dentro de si quanto dentro dos outros.

O mito do herói é um drama inconsciente que descreve claramente a busca da realização total, culminando com a cointidentia oppositorum, aquilo que chamamos de individuação na psicologia jungiana. O herói representa o grau de energia psíquica que transita entre o Self, ou o verdadeiro Eu, e o ego e que, por sua natureza, está associado aos ritos de passagem centrais na estimulação da consciência. O modelo mítico que configura a estruturação da consciência, a partir do inconsciente, mostra sempre o mitologema do herói que mata o monstro. Tal morte simboliza o domínio ou repressão de impulsos instintivos primitivos e aponta para a oposição entre instinto e cultura ou parte mais material de nossa personalidade e seus impulsos superiores e puramente espirituais.

O herói representa todo ser humano que se esforça por renovação pessoal, social e espiritual, por meio do domínio criativo e da ampliação da consciência, alguém como que predestinado a executar a missão de servir à coletividade e que para isso se sacrifica, abandonando velhos padrões para fundar algo novo.  É considerado um inovador de tradições. O ciclo mítico do herói pode ser resumido no seguinte esquema: o herói recebe uma convocação para cumprir seu destino, o “chamado da aventura”, seguindo-se o “enfrentamento dos guardiães do limiar”, das “provas difíceis”, da “batalha com o monstro”, do “casamento sagrado”, culminando com o seu “retorno triunfante”.

A trajetória do herói arquetípico serve para explicar o processo de individuação. No decorrer desse processo, a primeira figura a ser confrontada é a sombra que contém os aspectos ocultos, reprimidos e desfavoráveis da personalidade. No seu entender, ela não é apenas o simples universo do ego consciente. Assim como o ego contém atitudes favoráveis e destrutivas, a sombra possui algumas boas qualidades: instintos normais e simples de caráter criativo. O enfrentamento da sombra equivale à retirada da máscara e à tomada de consciência daquilo que cada um considera desagradável ou indesejável em si próprio. A sombra pode ser caracterizada como o arquétipo da negação. Na sombra é personificado tudo aquilo que se tem resistência ou dificuldade para assimilar como próprio. A sombra é o amargurado ou reprimido que clama por expressão. Não só se opõe à persona, no constructo social, mas também em nível individual do sujeito e seus instintos e potenciais negligenciados pela sociedade.

Diversas pessoas que trilham o caminho do aperfeiçoamento individual acreditam que completaram o processo, mas são incapazes de enxergar a verdade sobre si mesmas. Muitos de nós almejam ver a luz e viver na beleza do seu eu mais elevado, mas tentamos fazer isso sem integrar nosso ser. Não podemos ter a experiência completa da luz sem conhecer a escuridão. O lado sombrio é o porteiro que abre as portas para a verdadeira liberdade. Todos devem estar atentos para explorar e expor continuamente esse aspecto do ser. Quer gostemos ou não, sendo humanos, temos uma sombra.”

Realizar a síntese destes aspectos opostos em nós mesmos, aqueles que tendem à Luz e ao dinamismo criador e aqueles que nos prendem à materialidade, sob a orientação de nosso Self ou Eu mais profundo, é a meta do processo de individuação psíquica e mesmo de boa parte da jornada iniciática que visa a preparar o homem a dar passos mais amplos em seu processo de emancipação das forças materiais. Isso ocorre com a discriminação (Separatio) e a consequente integração de conteúdos inicialmente inconscientes e que fazem parte de um processo de transição da consciência comum para um estado psíquico mais amplo, na busca do homem mais plenamente consciente, o homem total.

Este processo de integração ou harmonização dos opostos, levado a cabo no próprio homem, tem a finalidade de aproximar o homem da ideia ou imagem do divino que existe em seu próprio âmago, a chamada Imago Dei. Esta aproximação e configuração à Imago Dei é verdadeiramente a reconciliação com sua própria natureza mais íntima. De acordo com o Hermetismo, esta Imago é tal como fomos concebidos arquetipicamente pela Mente Cósmica ou Divina, o que se relaciona à Lei Hermética do Mentalismo, conforme enunciado na Caibalion, “O Todo é Mente; o Universo é mental.”.

Entre os astecas e outras culturas da América Central e andina, Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada (uma combinação de Quetzal, pássaro e serpente), é uma divindade solar e surge como elo entre os deuses e os homens, podendo ainda estar associada à chuva, ao vento, aos raios e trovões, bem como ao sopro da vida, ou ainda ao tempo incriado. Sua imagem está intimamente ligada à própria ideia de transformação da realidade simbólica. A palavra “símbolo” remete ao do grego symbolon, derivado do verbo sym-ballein, que significa “lançar com, por junto com juntar”. A etimologia da palavra implica que símbolo é, a priori, uma dualidade, que se torna uma. A própria definição da palavra já se conecta à integração dos opostos e pode ser associada com a imagem do Ouroboros.

Esta imagem da Serpente Emplumada, fusão dos arquétipos da serpente com o do pássaro, tem íntima relação com a realidade da transformação e da transmutação das forças da personalidade e da consciência empreendidas na jornada do herói mítico. Esta jornada tem uma íntima identificação com o processo iniciático. Penas representam a ascensão da consciência humana à Fonte Maior de vida e consciência.

A serpente com asas pode tanto simbolizar a transmutação das forças físicas e sutis do ser humano, quanto a sua elevação através da coluna vertebral e centros específicos de seu corpo energético, de acordo com padrões específicos. É inevitável que nos venha à mente a imagem do Caduceu de Hermes, e de fato uma realidade mercurial é extremamente presente neste simbolismo arquetípico da Serpente Emplumada.

Mas talvez a ideia de uma serpente com asas seja algo muito mais realista em relação ao nosso corpo do que poderíamos imaginar. Não se trata de algo apenas psíquico, metafórico ou mesmo de cunho metafísico. A cobra é estruturalmente apenas uma cabeça e coluna vertebral, e move-se no movimento ondulatório sinuoso da onda ou espiral, que é um movimento básico de energia vital. Tradicionalmente, a força vital ou energia Kundalini reside na base da coluna vertebral no sacro, ou osso sagrado, aguardando para ser despertada. Muitas práticas são projetadas para ativar e liberar essa energia. Kundalini era o nome de uma antiga deusa Hindu, uma serpente de bronze fêmea que fica enrolada e adormecida, representando energia feminina do ser humano ou Shakti. Quando ela desperta e se eleva através da coluna vertebral para a cabeça, ela se funde com Shiva ou energia masculina. Este aspecto polarizado da manifestação em nosso ser está relacionado a duas leis herméticas. A Lei Hermética do Gênero: “O Gênero está em tudo: tudo tem seus princípios Masculino e Feminino, o gênero se manifesta em todos os planos da criação”, e a Lei Hermética da Correspondência: “Tudo é duplo, tudo tem dois polos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados “.

Os centros de energia no trajeto são ativados, e estados mais profundos de consciência e bem-aventurança são experimentados. Muitas vezes, isto é vivenciado como uma energia se movendo de forma rítmica, movimento em espiral em forma de onda. A cobra é uma metáfora espiritual para este movimento de energia em nossos corpos. Temos aqui a demonstração de mais uma lei, a Lei Hermética do Ritmo: “Tudo tem fluxo e refluxo, tudo tem suas marés, tudo sobe e desce, o ritmo é a compensação”.

E o que acontece com a imagem de a serpente alada? Será que a nossa coluna vertebral tem asas na parte superior, ou isso é apenas uma metáfora de como o espírito pode subir uma vez que esta energia é liberada e despertou?

Na parte superior da coluna vertebral se encontra um osso relativamente desconhecido chamado osso esfenóide, que é um dos muitos que formam a base do crânio. Este osso está bem no centro da cabeça. É uma região importantíssima de interligação do cérebro com o trinco cerebral, a medula e vários nervos cranianos. É o esfenóide que também envolve e protege a glândula pituitária ou hipófise.  A pituitária controla as funções de todas as outras glândulas endócrinas do organismo, e está classicamente associada ao sexto chakra ou terceiro olho.

O esfenóide é nosso osso sacro ou sagrado no topo da coluna, na base do cérebro, igualmente tão potente como o osso sacro na base da coluna vertebral. É dito que ele está fortemente relacionado com os sexto e sétimo chakras, relativo à sabedoria e à iluminação espiritual. É a partir do centro deste osso, que os místicos do Oriente parecem experimentar o sabor doce de Amrita ou néctar da bem-aventurança divina e da imortalidade, que flui para baixo a partir do chakra coronário quando se entra em estados muito profundos de meditação.

O esfenóide também suporta parte do tronco cerebral, que é a parte mais antiga, menor e mais compacta do sistema nervoso central do homem, que faz parte do chamado significativamente cérebro reptiliano. Lembremos de que a serpente é um réptil e se acredita que os pássaros evoluíram dos répteis, ou seja, um pássaro é uma forma de réptil transmutado ou transfigurado, se assim podemos dizer de uma forma mais metafórica. Esta parte do cérebro regula a respiração, batimentos cardíacos, os mecanismos de luta ou fuga, o acasalamento e sobrevivência. É pré-verbal, instintiva e ritualística e é semelhante ao cérebro dos répteis e aves. As emoções básicas de territorialidade, atração, repulsão, desejo, medo e contentamento vêm desta parte primitiva do nosso eu. Qualquer pessoa que tenha contatado essas emoções poderosas sabe como atraentes elas são, e como elas podem superar o pensamento racional. Muitas vezes este aspecto mais selvagem e reptiliano de nós mesmos é temido e demonizado.

A coisa interessante sobre o osso esfenóide é que ele tem um formato de uma borboleta ou ave, com um par de asas, as asas menores e maiores do esfenóide. Aí nós temos as asas de nosso caduceu alado em nosso interior. Quando uma pessoa é saudável e normal, há uma pulsação muito sutil nos ossos cranianos conhecidos como pulso craniano. Esta condição dos ossos do nosso crânio estão de acordo com a Lei Hermética da Vibração: “”Nada está parado, tudo se move, tudo vibra”.

O osso esfenóide tem uma pulsação muito pequena, mas importante e perceptível, pulsação que se assemelha ao bater das asas para a frente e para trás. Este pulso foi notado há muito tempo por osteopatas e trabalhadores corporais crânio-sacrais, mas ainda está em discussão na comunidade médica tradicional. Ela começa a pulsar através da experiência do parto vaginal normal. Ela pode tornar-se bloqueada através de trauma e tensão, mas pode ser restabelecida por um trabalho mais sutil sobre o corpo.

Portanto, a Serpente Emplumada tanto se relaciona a realidades psíquicas, quanto a condições físicas ou espirituais mais elevadas no ser humano. E não poderia ser de outra forma, pois somos um binômio corpo-alma de acordo com a Lei Hermética da Correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora.”

Nesta imagem simbólica da Serpente Emplumada, carregada de sentido cósmico e anímico, verificamos a integração de opostos psíquicos complementares. Percebemos que o processo alquímico é cíclico, e, assim como o processo de individuação, exige um constante processo de atuação do indivíduo para com seus conteúdos, processo este que costuma acontecer por toda a vida. Trata-se de um processo cíclico e constante, tal como retratado no Ouroboros, que representa a integração de opostos e a volta para a unidade. Vemos em ação, de uma forma ampla, a Lei Hermética de Causa e Efeito: “Toda causa tem seu efeito, todo o efeito tem sua causa, existem muitos planos de causalidade mas nenhum escapa à Lei”.

A Serpente Emplumada encerra em si a resolução do conflito dialético, atingido na busca da individuação psíquica, ou o solve et coagula representando no processo da Opus Alquímica. Temos uma ideia arquetípica que se refere à capacidade humana de se renovar e se superar, solucionando os conflitos egóicos, ampliando a consciência humana no sentido da individuação psíquica ou da realização espiritual.

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