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VERSOS DE OURO DE PITÁGORAS

Introdução

A publicação desta nova tradução dos “Versos de Ouro” de Pitágoras, realizada por Tikairos, se justifica com a imperfeição das traduções existentes.

Quanto ao sentido e o lugar dos preceitos contidos nos “Versos de Ouro” estes podem ser usados como um rito inicial sem obstáculos (Galeno dizia que estava acostumado a recitá-los no final e no começo do dia), que não exclui nenhum outro. Existem duas vias para se alcançar aquele destaque, que permite a percepção da realidade sutil e o contato com as forças ocultas do universo; harmonizando, ou melhor forçando. O perfeito equilíbrio do corpo e da alma, o estado de justiça, sentir-se em paz consigo e com os outros, permite dirigir-se em uma outra direção onde existem forças sutis da alma, que dormem até que se fique nas ações, nas reações e agitações de uma existência agitada e preocupada. Mas é igualmente verdade que se pode atingir o mesmo objetivo por imposição agindo diretamente nos limites interiores da alma, e a via, então, é livre de preceitos morais no sentido estrito (como poderia também ser o hábito da vida comum dos homens), e pede somente energia, intrepidez, faculdade de superação e de renúncia. Os “Versos de Ouro” se referem à primeira direção: para aqueles que a escolhem, estes podem constituir então uma preparação útil.

1.Antes de mais nada adores os Deuses imortais, respeitando a sua  hierarquia:

e depois veneres o Orco, e os fúlgidos Heróis endeusados.

Realizes as ofertas de rito aos Demons subterrâneos, e honres os genitores, e os nascidos mais próximos a ti.

5.Quanto aos outros, sejas amigo daquele que é mais egrégio por mérito,

imitando-o com palavras serenas, e com ações úteis.

Nem fiques com raiva do amigo, por uma culpa leve,

de acordo com as tuas possibilidades: porque junto com o poder convive a Necessidade.

Então saibas estas coisas, e saibas frear estas outras:

10.antes de mais nada o estômago, e também o sono, e também o sexo,

e também a cobiça. Portanto, não faças torpezas com os outros,

e nem sozinho: tenhas pudor primeiro contigo mesmo.

Depois sempre, com palavras e fatos, exercites equidade,

e habitua-te a nunca ser, em nada, arrojado,

15.e lembra-te que, no final, a todos é necessário morrer.

Então, hoje procuras conquistar riquezas, exitas amanhã;

e muitos, por destino, passam por dores,

aquelas que te forem destinadas, suporte-as calmo, sem ira.

Sim, te convém curá-las, com todas as tuas forças: e pensas

20.que não a muitos, dos bons, a Moira dá sofrimentos.

Chegam até o ouvido humano, discursos vis e egrégios:

tu, não te contraries com aqueles, nem permitas que os outros te destraiam:

e se por acaso for dita uma mentira, com calma

tu deves resisti-la: e cumpras tudo o que eu te digo agora.

25.Ninguém, nunca nem com as palavras, nem com obras, o induza,

a dizer ou fazer uma coisa que não te pareça ser o melhor.

Antes de agir reflitas, por isso: que não sejam feitas estultícias;

porque fazer ou dizer estultícias, são coisas de um homem que não vale nada.

Mas tu farás as coisas, que depois não te prejudiquem: nenhuma,

30.então, que tu não conheças muito bem; mas aquilo

que for necessário aprendas, e terás uma vida muito feliz.

É necessário então, curar a higiene do corpo,

a bebida e a comida, e os exercícios físicos, com temperança:

sejas temperante, para que nunca tenhas aborrecimentos.

35.Então habitua-te a uma dieta, limpa, mas sem molezas;

então abstenha-te de agir para provocar inveja.

Assim sendo, não gastes mais do que o necessário, como uma pessoa que não conhece o belo,

mas não sejas avaro: temperança, em tudo, significa ser nobre.

Em resumo não faças o teu mal, e ponderes antes de agir.

[de maneira que antes de mais nada por mais que o sono se apresente soavemente,

imediatamente preocupa-te com aquilo que queres fazer no dia seguinte].

40.E não aceitar, o sono nos olhos, por mais lânguidos que eles estiverem,

antes que cada ação tua diurna, tenha sido examinada por três vezes:

“Onde fui? O que fiz? Qual obrigação eu não cumpri?”

E, partindo do princípio, percorras todos os detalhes.

Cometetes baixezas? Reprova-te. Belas ações? Alegra-te.

45.Daquelas aflija-te, a destas dedica-te, e interessa-te:

àquilo que a virtus divina colocará no teu caminho.

Sim, sim: para Aquilo que a Tétrade transmitiu para as nossas almas,

fonte da eterna-fluente Natureza. Mas prepara-te para a obra,

pedindo aos Numes para que esta seja realizada: e fortalecido por eles,

50.tu conhecerás os Deuses imortais, conhecerás os humanos caducos,

a essência onde uns trapassam, onde outros se dirigem e imperam.

Conhecerás Themi; Natureza, idêntica a si mesma em toda parte;

e não esperar o inesperável, e não deixar nada inexplicável.

Saberás que os homens suportam provas aceitas por eles.

55.Miseráveis: o bem está junto deles, e ninguém vê nem ouve,

e, a liberação dos males, é avistada por poucos;

o seio dos mortais é depravado por tal destino! E são jogados

para lá e para cá, como em cilindros móveis, em meio a choques infinitos.

Neles é congênita sequaz uma oculta e maligna

60. ira, que não deve ser excitada, mas acalmada e afastada.

Zeus pai, certo é que, poderias liberá-los de muitos desastres,

se te dignastes a revelar a todos de qual demon podem se servir.

Mas tu, tenhas coragem: a origem daqueles mortais

aos quais a Natureza vai abrindo as arcanas virtudes que ela explica, é divina.

65.Se em ti existe alguma coisa deles, verás até lá onde eu te exorto,

reintegrado e silencioso, e a alma tua será imune de males.

Mas deixas os alimentos que eu disse, nos dias em que a alma deve ser pura e livre:

e observas, distinguas e avalias tudo,

e ergas a Inteligência soberana como sendo guia do alto.

70.Assim sendo, se deixando o corpo, tu fores para o livre éter,

espírito nume imortal, mais vulnerável não serás.


COMENTÁRIO

Éliphas Levi se preocupava em conciliar Magia e Catolicismo, Pitágoras ao contrário não se chocava com os vários cultos locais, em qualquer lugar onde passasse, ou em qualquer lugar onde surgisse uma sua Escola. Dos numes mais famosos usava talvez os nomes, dando-lhes, naturalmente, significados novos, no ensinamento secreto. Assim sendo as Divindades imortais parecem ser aquelas que foram chamadas as Inteligências celestes: antes de mais nada a Solar – o Apolo dos profanos – e assim por diante aquelas dos Planetas, segundo uma hierarquia de dignidade, de potências e de situações, análoga às graduações da gama musical estudada profundamente por Pitágoras. Quanto à consideração “adoras a divindade”, foi necessário recorrer à graduação das honras espirituais, deferências e observâncias, a deuses, a gênios, a demons. Mas, no grego antigo, não existia o conceito de adorar, nascido da aproximação de ad-orem (à boca) das abas da púrpura imperial romana e bizantina. De fato o texto é usado, logo depois, também para genitores e parentes; e a adoração pitagórica comportava não tanto um afundamento diante das inacessíveis grandezas, quanto uma afetuosa veneração, a fraternas e paternas superioridades deiformes, imortalmente liberadas e vibrantes, em imensidões abissais de luz e de éter. [Além disso não será inútil notar que aqui nos encontramos em um campo essencialmente prático; no qual os elementos devem ser pegos categoricamente na sua capacidade de “trabalhar” na alma; então fica íntegra a questão metafísica com respeito à natureza dos deuses. E isto seja dito também, de uma vez por todas, para tudo aquilo que se refere à ordem da magia cerimonial].

O Orco é, precisamente, aquele cone de sombra que, projetado pela Terra, em rotação sempre oposta ao Sol, tinha como mais esplêndido e cambiante astro a Lua, e servia como demora dos Gênios e dos Heróis. Depois foi vulgarmente confundido com o subterrâneo Tártaro, e substituído com o Elísio. No entanto “a cintilantes e alegres” – eu acrescentei endeusados, como ideia essencial não mais contida, hoje, em Heróis; eram de um lado os semideuses tutelares de cada cidade ou família, como Teseu ou Quirino, ou como os Lares e os Penates; e eram, por outro lado, os Mestres de Magia que chegaram a ser, durante a vida ou após a morte, Adeptos Imortais. Logo depois, a Hierarquia passa para as Energias subterrâneas da Mãe Terra nas várias formas de maturação, crescimento e movimento.

É necessário que seja lembrado que o termo demon, no classicismo não teve o significado de entidade malvada assumido pelo cristianismo. Todo homem tem o seu demon; e a sua distinção entre homem mortal e demon pode ser, em um certo modo, reconduzida àquela entre indivíduo individuado e indivíduo individuante. Em um certo estado prenatal, a consciência determinou tudo aquilo que depois viverá na série temporal; e esta entidade causal, que fica como substrato da entidade humana psico-física, e invisivelmente dirige-a e sustenta aqui embaixo, é o demon.

Porém se deve considerar que o ponto de vista do “indivíduo individuante” e aquele do indivíduo humano são muito diferentes. O primeiro pode não ter como critério o agradável e o desagradável, o feliz, o bom, etc., assim como acontece para o segundo. Tentar compenetrar toda a própria vida, qualquer que ela seja, com o sentido que nós mesmos quisemos isto, conduz a uma sensação de incomparável segurança: nos harmonizamos com a mais profunda, transcendental vontade, até que, tendo contato novamente com esta – com o demon – nos torna capazes, ainda neste mesmo corpo, de dominar o sentido e a direção daquilo que para outros seria um “destino”. A “voz do demon” nos momentos de dúvida ou de confusão, é como uma chamada e um afloramento do ser (ou do estado) mais profundo, que nos endireita e nos empurra sem incerteza em direção do caminho a ser seguido. Isto se refere ao significado superior do “demon”; todavia existe um inferior, baseando-se no qual o “demon” é um só com o “ente samsarico”.

No verso 42 todos traduzem: “No que eu pequei?”. É um exagero; o verbo significa simplesmente “Onde eu estive?”, com o subentendido de “em companhia de outras pessoas”. Para ter o significado de transgredir, deveria ser acompanhado, também no grego, por particulares complementos: a lei, um comando, uma entrega.

Aquilo que a Tétrade pode transfundir, corresponde ao esotericamente “Ele e a Tétrade”, entendido como “o eterno e infinito provir do Uno-Tudo” idêntico em todo lugar. Para o Tetraktys em particular – a Tétrade, o Quaternário, o Quatro-em-atividade – seria aqui inoportuno rever todas as interpretações e aplicações excogitadas e excogitáveis, até o sentido de 10 (=1+2+3+4= Pequena Tétrade), e de 36 (=1+3+5+7+2+4+6+8= Grande Tétrade). Aqui é preferível entender o puro e simples Quádruplo, no sentido estático e dinâmico.

No primeiro sentido, 1 o ponto, 2 a linha, 3 o plano especialmente triangular, 4 o sólido em geral e a Pirâmide em especial, símbolo notório e tradicional do Fogo. No segundo sentido, 1 o princípio ativo, 2 o receptáculo passivo, 3 o produto emergente, 4 o indivíduo que se constitui autoconsciente, autointegrado, autoativo, para expandir-se novamente até o 1, e recomeçar a série. Trata-se então do primigênio Fogo da Vida universal, que é sem dúvida fogo mágico da Reintegração individual.

É suficiente para nós, mesmo se o antigo Hiérocles – cujo famoso comentário a estes Versos infelizmente não têm, esotericamente, grande valor teorético nem crítico, nem especialmente prático – acrescenta que os Pitagóricos, com aquela espécie de juramento “Sim, sim para Aquilo que a Tétrade transmitiu para as nossas almas”, queriam aludir ao próprio Pitágoras. E se de fato transmissão de Fogo pode ser chamada todo Mestre que acenda em outros a oculta igneidade mágica, poucos tiveram ou terão, mais do que Pitágoras, direito a este nome. Mas, de transmissão em transmissão, é óbvio que se tivesse que, em uma compreensiva concepção pitagórica, remontar até alguma coisa de análogo àquilo que foi o Demiurgo platônico, ou o próprio Fogo cósmico heracliteu.

No verso 49 todos entenderam “dominando ou observando estes preceitos”; mas o sentido mais literalmente imediato era justamente também o mais esotérico: “fortifique-se com eles”, ou seja, forte com os Deuses nominados acima; forte, sim, também nos preceitos desenvolvidos e a serem desenvolvidos: e, uma e outra coisa, através da observância destes. Triplo sentido, do qual eu preferi dar, literalmente, o mais oculto.

Versos 70 e final:

Deixando o corpo? Ou, como quase todos os tradutores entenderam, somente após a morte? Dúvida a ser estendida a dois trechos análogos de CÍCERO, no “Somnium Scipionis”, na metade e no final. Pelo contrário, aqueles vivem realmente, aqueles que voaram para fora dos vínculos dos corpos, como de uma prisão.

E quanto mais rápido você fizer isso (de voar de volta para a própria sede celeste), ou seja se livrar enquanto estiver preso no corpo: contemplando as coisas que terá deixado no externo, abstraindo-se sempre mais e mais do corpo.

É esotericamente explícito este segundo trecho, e mais do que explícito, também o primeiro, da observação de MACRÓBIO, em Somnium Scipionis, I, 10: “Você encontrará toda a discussão que a Sabedoria dos antigos (Teólogos) agitou na indagação deste quesito, escondida nestas poucas palavras”. Explícito também o pseudo JÂMBLICO em “Sobre os Mistérios”, I, 12, onde entre os outros dons dos Deuses benignos aos seus teurgos coloca aquele de habituar as almas, “desde quando ainda estão no corpo, a separar-se dos corpos, a dirigirem-se para o Princípio Imortal”.

Mas nem este dirigir-se para o Princípio Imortal, nem a segunda condição ciceroniana – que, contemplando as coisas eternas naquelas excursões astrais, se desenlace sempre mais do corpo – seriam ideais atuáveis, se não se tivesse antes estavelmente alcançado aquele equilíbrio interno ao qual os Versos de Ouro preparam. A específica liberação que poucos avistam não seria outra coisa, sem isto, senão um enorme risco de males multiformes: tentações de abusos vis, maus encontros com seres hostis astralmente mais fortes, acidentes de viagem por regiões desconhecidas, recaída em mais laços dolorosos de um corpo eventualmente deteriorado. Em todo caso, não é necessário dizer, que para tudo isto, ocorre, a formação, o desenvolvimento e a consolidação de um “corpo sutil”: cujo embrião pode mais ou menos rápido desenvolver, segundo a constituição e o entusiasmo dos vários indivíduos; mas não é absolutamente dito que, se ao embrião físico ocorrem sete ou nove meses, não ocorram, para este outro embrião, sete semanas ou nove anos, ou talvez não seja suficiente a vida inteira. Alguns precisam o período, de um novilúnio a um plenilúnio; mas talvez se trate, precisamente, da concepção e liberação desta futura “nua, Diana”, destinada a agir “pura e livre” da própria veste corpórea. Ora, se em você existe alguma coisa, ou melhor se já existe um primeiro germe de deificação, se este também tivesse que ser criado, a tarefa só poderia ser muito longa. De qualquer maneira, é óbvio que, justamente para a formação do novo invólucro tenham uma especial importância os favoráveis ou desfavoráveis influxos que nós atraímos, ou provocamos, das virtudes ocultas planetárias e principalmente solares.

Você será um Deus imortal, tendo observado todas as prescrições do Carme – e começando, entanto, pelo humilde mas útil rito de imitar o teor de vida justo. Se ao contrário você não observar todas as prescrições, ou não conseguir fazer quase nada, ou se tornará somente um demon inferior, sujeito a recair no desejo ardente e na abjeção, no sofrimento e na mortalidade. – Depois diz “ainda imortal”, mas com o específico conceito de vivente “sem necessidade de sangue e de alimento”: e eu tentei interpretá-lo com espírito. E se conclui com ainda não mais mortal, mas no sentido de não mais sujeito a ser morto: e o sujeito a ser morto por excelência foi e ainda é a caça, a fera, o bruto. De maneira que um ser “não mais brutal” teria ultrapassado, eu acredito, também o pensamento oculto do texto. E o objetivo da Magia seria em resumo o conseguimento da imortalidade a qual não parece ser então uma qualidade natural de todas as almas, um dom imediato de todos. Também o anônimo autor de Chymica Vannus e de De Pharmaco Catholico, aos primeiros sinais de mágica iniciação conseguida, gritava como sua máxima expressão de alegria:

Eu serei imortal, com a condição que se continue assim.

Então eu só posso como pitagórico desejar o mesmo a colaboradores e leitores.

 

 

Tradução do grego e Comentário curados por Tikairos (Ercole Quadrelli) e Heniocos Aristos (Arturo Reghini)

Tradução da versão italiana publicada em UR (1928) de Emirene Armentano Sestito

 

 

 

 

 

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