Kremmerz

 

PLOTINO – O RETORNO AO UNO

II Parte

Reinholdo Aloysio Ullmann

 

2 – A união mistica com o Uno.

A culminância da dialética plotiniana è a união mistica com o Uno, numa conteplação extática. Hénois è a palavra greca para designar essa união. No caminho da “conversão”, que caracteriza o itinerário da “inteligência espiritual” no homem, Plotino aponta para além da intelecção, para a pura intuição do Uno, que é simples e sem alteridade. Aqui, a alma prescinde de toda razão discursiva e de toda ciência. Trata-se de um estado hiper-racional, que tem como um dos momentos preparatórios a reflexão, a virtude, a ascese.

O que significa união mística? Uma co-presença com o divino, atemporal, em que a alma entra na posse e unidade máxima de si mesma, para alcançar a similitude com o Uno (homoiôsis tô Theo).

Mística deriva do verbo grego myô e significa fechar-se; especialmente fechar os olhos, recolher-se. Por isso, mystikón é o oposto de phanerón (aberto, manifesto). Em Plotino, a mística é pensada como háplôsis, isto é, como máxima simplificação da alma racional, quando ela se retrai para o fundamento do seu ser. Para que se dê tal união, misteriosa, secreta, indizível, com o Uno, é mister deixar atrás de si a matéria. Não se trata, pois, na mística, de um sonho de visionário, nem é identificável com transes xamânicos ou com o enthousiasmós dos órficos e dos participantes dos ritos dionisíacos. A mística plotiniana não é deificação, mas assemelhação com Deus.

Na vivência da união mística, a alma entra, pelo assim dizer, no Santo dos Santos, que representa o abandono das imagens (as estátuas dos deuses) as quais simbolizam o singular ou o muito. Aqui a alma repousa como Deus, no sétimo dia. Muitas vezes, também os místicos descrevem a sua união com Deus como a entrada num deserto. Deserto, aqui, não significa lugar vazio, mas é uma analogia, para represen¬tar a solidão da alma com o Uno. Tudo a alma abandonou {deserere, em latim), para defrontar-se com a dimensão divina. Então, a alma está despojada de tudo. Cumpriu o áphele pánta. É o instante da contemplação, com plena felicidade, numa vivência supra-sensível, trans-racional, atemporal. É descanso no Uno. Ekstasis equivale ao ex-cessus mentis dos medievais, ao arrebatamento (rapto) de Paulo, descrito em 2Cor 12, 1. Somente o puro pode contemplar o Puro.

Não se pense, porém, que o êxtase seja dissolução do eu. Não é anulação, nem deificação, mas assemelhação com Deus.

2.3          – A par dessa visão grandiosa do destino da alma humana, encontramos um paradoxo: Plotino nega a ressurreição da carne (o que dá a entender que dela tinha ouvido falar de amigos cristãos). Diz o filósofo: ‘“Ressurgir com um corpo, equivale a cair dum sono em outro; a passar, pelo assim dizer, de um leito a outro,,.

2.4          – E o que acontece com os homens que não chegam, na primeira existência, ao cume da perfeição, ou seja, à união com o Uno pelo êxtase? Seu destino é a metempsicose. Aqui Plotino revela-se inteiramente platônico. A”metempsicose, ou melhor, a metensomatose, traz a possibilidade de reencamar-se em corpos de animais e até de plantas, consoante a vida levada na existência precedente.

2.5          – Qual será o destino dessas almas, ao fim de suas transmigrações? A apocatástase[1]. Dado o caráter naturalístico da emanação, não pode haver diversidade de destinos. Todas as almas devem retornar ao Uno. Porém, assim como, pela emanação, o Uno não sofre diminuição, porque não despotencializa a sua substância, assim também, pelo retomo das almas, não recebe acréscimo, o que exclui, por conseguinte, toda e qualquer interpretação panteística. O Uno é transcendente e imanente.

2.6          – Cabe perguntar aqui: se alguém, como Plotino, teve o privilégio do êxtase, já neste mundo, que influência exerce isso sobre a vida cotidiana? Responde Plotino: verá transfigurada a realidade física e humana, viverá o eterno no devir temporal e amará a Deus todas as coisas, com amor sereno. Dessa intuição excepcional, nascerão as grandes ações, que orientam eticamente a humanidade; surgirá renovação religiosa e atividade dos políticos sábios, com um senso cada vez maior de solidariedade social. Tal homem não permanecerá num quietismo inoperante, mas com alegria agirá desinteressadamente.

Pelos frutos se conhece a árvore. Mensurada racionalmente, a união mística é absurda e paradoxal, porque o Uno se encontra para lá de toda predicabilidade e porque a contemplação mística representa uma experiência pessoal, intransferível e inefável.[2]  De outra parte, não se pode pôr em dúvida ou negar essa vivência de muitas almas a sós com Deus, nem considerála um sonho, paranóia ou anomalia, pois os efeitos da visão do Uno demonstram a convicção da realidade vivenciada.

Em nossa época de crasso materialismo, não admira que a mística religiosa seja olhada com certo desdém. “Na filosofia moderna, consuma-se a cisão entre filosofia e mística, com o desaparecimento do espaço noético da ‘inteligência espiritual’. A mística como experiência do Deus transcendente sucedem-se as místicas da imanência: da história, da revolução, do super-homem, da terra, e finalmente, do nada”. Faltam ao homem de hoje as aures religiosae de que falava Cícero.

 

3 – A fecundidade da mensagem plotiniana

Concluímos este pequeno estudo, com algumas achegas a respeito da fecundidade da mensagem plotiniana na história, com dúplice divisão: a primeira, atinente ao conceito de emanação; a segunda, rela¬tiva à mística.

3.1- Visto não haver contradição entre o emanacionismo plotiniano e a criação em sentido cristão, não poucos pensadores cristãos valeram-se do conceito de emanacionismo, sinonimizando-o com criação. Vejamos alguns exemplos. Boécio insiste no fluir ou defluir das coisas livremente quisto por Deus. Também o Pseudo-Dionísio (Dionísio Areopagita) praticamente só emprega o termo emanação (ékbasis), quando fala em Deus criador. O verbo ktizein raramente ocorre. No Pseudo-Dionísio, há de abeberar-se toda a mística medieval. Temos, depois, João Eriúgena, mediador da teologia oriental para o medievo latino, por sua tradução das obras do Pseudo-Dionísio. Dessarte, abriu à Escolástica as portas para a entrada do neoplatonismo. Deus, segundo Eriúgena, é o Pai das luzes ou a fonte eterna e perene da torrente de luz que se difunde, à maneira de uma cascata, através de todos os degraus hierárquicos dos seres, até chegar às criaturas inferiores e mais afastadas de Deus.

Igualmente Santo Tomás interpreta a emanação como criação: “Não devemos considerar somente a emanação dé qualquer ser particular, de um agente particular, mas também o da totalidade dos seres, da causa universal, que é Deus: e é a esta emanação que designamos com o nome de criação”. O mundo das criaturas é, pois, explicatio da essência divina. Como em Plotino, no Doutor Angélico o mundo criado participa (metéxein), é uma imagem de Deus.

Da mesma forma, em Mestre Eckhart deparamos expressões, que indicam emanação.

Inegavelmente, o influxo de Plotino se refletiu em Nicolau de Cusa, na obra De docta ignorantia. Para ele, Deus (Uno) é a complicatio de todas as coisas; o universo criado representa a explicatio.

Também Leibniz retoma a noção de emanacionismo, com sentido de criação.[3]

Nenhum dos personagens citados se inclui no rol dos panteístas, conquanto muitas vezes sejam qualificados como tais.

Diversa é a concepção de Hegel. No processo dialético, a partir do Uno (Absoluto), este se funde e identifica com o processo vivo da natureza. O Absoluto é o processo. Estamos, pois, diante de verdadeiro panteísmo.

Assim vemos que Deus ou Uno, como criador (emanante) perpassa a história da filosofia. Em Plotino, pela primeira vez na evolução do pensamento grego, a filosofia adquire uma modalidade essencialmente teológica, com amplas ressonâncias nas épocas seguintes. Em Plotino, mais que em Platão, o interesse volta-se para as realidades transcendentes, com “fuga” do mundo sensível.

 

3.2 – Passemos à influência de Plotino sobre a mística, apontando os tópicos essenciais.

Podemos dizer que Dionísio Areopagita representa o grande transmissor do sentido místico para o Ocidente. Em sua Teologia mística, utiliza termos típicos de Plotino: abandonar todas as coisas (pán- ta aphelôn). Propõe três degraus, para chegar à união com Deus: a purificação sensível, que consiste na liberação da matéria; a iluminação, mediante a qual a alma entra em contato com Deus; finalmente, a união santificadora que constitui a perfeição da alma, em que ela sai da obscuridade e se une plenamente por amor ao inefável.

Em Santo Agostinho, herdeiro de Plotino, a união mística acha- se descrita na reflexão por ele feita com Mônica, sua mãe, em Óstia.

Vêm a seguir os grandes místicos medievais, com Plugo de São Vítor, São Bernardo, São Boaventura, sem falar de Eckhart, Tau- ler, Suso, Ruisbróquio e outros. Em não poucos casos, o movimento místico, que também atingiu os universitários, representou uma reação ao nímio intelectualismo no ensino e ao nominalismo. [4]

Na Renascença, através da tradução das Enéadas, por Marsílio Ficino, o pensamento plotiniano foi considerado como expressão de uma tradição antiqüíssima, com raizes órficas. Deuse acento à espiritualidade teológica do universo e à afinidade entre a estrutura humana (o homem como microcosmo) e a estrutura cósmica. Ao mesmo passo, foi ressaltado o belo como revelação sensível de uma ordem metafísica.

Na idade romântica, verificou-se um significativo renascimento do plotinismo. Os românticos não apenas se voltaram ao culto da inte- rioridade, mas ao supra-racional e supra-inteligível. Destacam-se Novalis e Schelling[5].  Ademais, ao mecanicismo determinístico eles opuseram a essência da vida e do ser como mistério. Sublinharam o valor e a função imprescindível da intuição e do sentimento contra o intelectualismo e o racionalismo.

Hoje, no século XX, o pensamento plotiniano é objeto de pro¬fundo estudo, especialmente na Europa, e inspira a especulação filosófica. Cito apenas dois expoentes nesse campo: Wemer Beierwaltes, com sua obra Pensare l ‘uno e Karl-Heinz Volkmann-Schluck, famoso por seu estudo intitulado Plotin ais Interpret der Ontologie Platos. O que se percebe, também em outros autores, é a defesa dos direitos do espírito contra o materialismo; do homem interior contra a disper¬são do mundo da técnica; a colocação de fronteiras à razão, que se arroga o direito de uma interpretação total da vida, sem adivinhar, nos signos do universo, os indícios de uma Unidade incompreensível, superior, transcendente.

As grandes idéias dos homens geniais nunca morrem. Entre eles, revela-se o pagão Plotino, como acabamos de ver.



[1] Apokatástasis, em grego, significa posto primitivo, restauração, regeneração”, também quer dizer “devolver a saúde a alguém”. Na linguagem teológica, tem o sentido de eliminar a diferença entre salvos e condenados. Ao fim e ao cabo, bons e maus se salvarão. Essa doutrina foi proposta por ORÍGENES e condena¬da pela Igreja (cf. DENZINFGER/SCHÕNMETZER, n2 411).

[2] A hênosis (unificação) com o Uno só pode “ser sabida” por quem a viveu. Clara¬mente o diz SÃO JOÃO: “(.. .) quod (i.e mysticum et secretissimum) nemo scit, nisi qhi accipit” (Apc 2, 17). Em linguagem análoga, já se expressara PLOTINO: “Aquele que o viu (mergulhando na intimidade do Uno), sabe o que eu digo” (Enéadas, VI, 9, 9)

[3] As Mônadas, segundo LEIBNIZ, resultam “par des fulgarations continuelles de la divinité de moment à moment”. E ainda: “Patet autem ab hac fonte (= Deo) res existentes continue promanare”. {In: HISTOR1SCHES WÕRTERBUCH. .., Band 2, col. 448).

[4] “O nominalismo havia criado um clima propício para os místicos, porque, importa recordá-lo, ensinava que a relação entre o homem e Deus apenas podia dar- se pela fé e não pela razão. Logo, somente por exercícios espirituais, o homem lograria entrar em contato com o divino, em profundo amor contemplativo” (ULL- MANN, Reinholdo Aloysio. A Universidade: das origens à Renascença. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 1944, p. 185).

[5] SCHELLING é contrário ao emanacionismo por julgar que “o emanado permanece idêntico ao emanante, não sendo, pois, algo independente e singular (Eig- nes)” {In: HISTORISCHER WÕRTERBUCH. . ., Band 2, col. 448).

 

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