Kremmerz

 

PLOTINO – O RETORNO AO UNO

Reinholdo Aloysio Ullmann[1]

Durante as nossas pesquisas sobre autores e escritos tendo um caráter pitagórico e neo-pitagórico na Biblioteca Ambrosiana de Milão, encontramos com feliz surpresa Reinholdo Aloysio Ullmann, extraordinário autor de textos relativos à filosofia e à tradição clássica. Ullmann era de Porto Alegre e foi um docente de filosofia e de literatura na PUCRS de Porto Alegre. (Ver na nota 1 o seu perfil biográfico). Isto demonstra que também o Brasil possuiu e certamente ainda possui pensadores e docentes dignos da melhor tradição espiritual antiga, fato este que deve servir como estímulo para a pesquisa e o estudo dos afiliados à Fraternidade Hermética.

(Salilus)

Examinaremos, neste trabalho, o retomo da alma humana ao Uno, princípio sem princípio de todas as coisas.

A relação do esquema cósmico de Plotino  (na imagem a esquerda) com ânsia de salva­ção funda-se em que, pela descrição metódica das hipóstases do ser, toma-se manifesta à alma a necessidade de retomar à pátria perdida. Para percorrer o caminho de regresso ao Uno, que em Plotino equivale a Deus, é mister à alma fazer abstração do mundo sensível.

Do mesmo modo como uma criança, separada da família, desde a infância, desconhece os seus pais, há homens que não possuem co­nhecimento de Deus,[2] porque imergem na matéria e se dispersam no múltiplo, julgando ser tal a vida verdadeira, quando de fato não o é.

ParaPlotino, a vida só é desejável, quando tem o liem por prin­cípio e fim.[3] O Bem ó o princípio absoluto, do qual depende todo o resto, por emanatismo. Absoluto, existente por si mesmo, anterior a todas as coisas, assim Plotino concebe o Uno.

Na ordem dos entes, o bem, para cada um deles, acha-se no princípio, que lhe é imediatamente superior. Assim, o bem da matéria é a forma; o bem do corpo é a alma; o bem da alma é a inteligência; o bem da inteligência ó o Absoluto. Cada um desses bens produz algo no ser do qual é o bem: a forma dá à matéria a ordem e a beleza; a alma confere ao corpo a vida; a inteligência dá à alma a sabedoria e a felicidade; por fim, o Bem dá à inteligência a luz que ilumina.

 

1 – Condições necessárias para chegar ao Uno

Epistrophé (volta para) é o termo usado por Plotino, para desig­nar o retorno da alma à sua origem.

Dois caminhos convergentes, orientados pela dialética, pro­põe Plotino, para ascender ao Uno: um, atinente à inteligência; outro, respeitante à vontade. Ambas devem assumir a tarefa da purificação (via purgativa), mediante gradativo desprendimento da matéria, pela abstração, ciphaíresis. Aphele pánía era a divisa plotiniana, a qual apresentava incessantemente aos discípulos como lema de vida. Para retomar ao Uno, dizia o filósofo pagão, basta o  esforço pessoal, sem auxílio de fora, pois ele estava convicto de que o Uno, por estar presente em tudo e por estarem todas as coisas presen­tes nele (panenteísmo), era dispensável o que os cristãos denominam graça ou dom gratuito de Deus. Já nesta vida, o homem reto e des­prendido de tudo pode, na mente de Plotino, unir-se misticamente ao Bem, ou seja, aDeus.

1.1- Qual o papel da inteligência? Por ela, a alma capta a beleza em todas as suas formas, seja a beleza intelectual, interior, seja a beleza da arte ou do mundo circundante. O belo tem o condão de fazer a alma entrar em si mesma e fazê-la recordar a origem divina. Mero belo de empréstimo, o belo sensível constitui uma força motriz capaz de conduzir a alma ao belo incorpóreo. Para Plotino, o belo não anuncia ou enuncia simplesmente a si mesmo, mas é revelação de algo que o transcende, de algo inteligível. A beleza tem, pois, função iniciática.

Ao Uno, Belo subsistente, a alma só logra alçar-se, se não mais tiver nenhuma alteridade, isto é, quando tiver abstraído, por completo, da matéria. Por outras palavras, o homem deve fugir do mundo. Essas palavras soam como se foram de um cristão, com os olhos e o coração voltados exclusivamente para o alto. Essa fuga do mundo Plotino ex­pressa-a metaforicamente com o retomo de Ulisses à pátria[4].

Tendo atingido a Beleza absoluta, a alma abandona todas as outras belezas, como um visitante de um palácio, que deixa de olhar as estátuas do vestíbulo, ao encontrar-se com o dono da mansão. Por outra, a realidade deste mundo, com suas belezas, deve mover o homem para o mundo verdadeiro.

Dissemos que Plotino pregava a fuga do mundo. Não se pense, no entanto, que isso significava desinteresse pela realidade social. Basta recordar que ele mesmo tinha sob seus cuidados a guarda de órfãos. Não se trata, pois, de uma fuga de desprezo radical, para viver num solipsismo, como estilita egocêntrico. Lembre-se o convívio com as altas autoridades em Roma e a solicitude paternal por orientar as consciências dos seus discípulos. Não se esqueça, também, a intenção de Plotino de fundar Platonópolis.[5]

O mundo é belo e bom, ordenado e harmonioso. Com essa perspectiva Plotino assumiu posição contrária aos gnósticos, os quais “todos têm um conceito pessimista da matéria, que consideram como essencialmente má e fonte do mal”. Aliás são numerosos os verbos enumerados por Plotino, para mostrar como os gnósticos manifestavam o seu desprezo pelo mundo. Segundo Plotino, o mundo deve ser tomado como aquilo que é a partir do seu arquétipo: como início e impulso para chegar ao seu fundamento pela anagogê (ascensão) da alma purificada. Do começo ao fim, as Enéadas revelam uma nostalgia do divino, uma elevada sensibilidade religiosa.

1.2 — Visto em largos traços o papel da inteligência, vejamos o que incumbe à vontade. A ela cabe orientar-se, sem desvios, rumo ao Uno, a fim de com ele unir-se em êxtase. Para tanto, é mister praticar as virtudes e valorizar a erótica. Nas virtudes, Plotino distingue as cívi­cas e as catárticas. As primeiras —justiça, prudência, fortaleza e tem­perança — não representam um ponto de chegada, mas um ponto de partida, porque traçam os limites aos desejos e moderam as paixões. Elas são apenas condição, para assemelhar-se a Deus. Já as virtu­des catárticas miram mais alto, porquanto liberam o homem das coi­sas sensíveis. Quais são essas virtudes? As mesmas que as cívicas, mas com função mais profunda. Com efeito, nesse estágio, o Nous, segunda hipóstase, toma-se modelo de virtude. (Note-se, entretanto,  que o Nous não representa o ponto terminal da ascensão ao Uno). Assim, nesse nível superior da virtude, a sabedoria contacta com o Espírito; a justiça é o volver-se da alma ao Espírito; a temperança é a adesão íntima da alma ao Espírito; a fortaleza é a perseverança impas­sível da alma no Espírito, sem paixão alguma nó corpo. Sem dar importância ao corpo, como Heráclito[6], e desprendido das coisas sensíveis, o homem atinge a apáíheia. Esse termo significa imperturbalidade, tanto na saúde quanto na doença. A primeira, para Plotino, nada acrescenta à felicidade; a segunda em nada a diminui. Aqui Plotino valeu-se da filosofia estóica, mas ultrapassou a indiferença por ela pregada, pois ele chega a desejar a dor.

Mediante tal ascese e prática ética, Plotino desejava melhorar e mudar o mundo e a concepção estóica ainda reinante cá e lá[7]. Julga­va loucura abandonar o mundo pelo suicídio. Para os estóicos, o suicídio constituía um ato moralmente bom e até heróico. Plotino, ao contrário, afirmava que, mesmo em meio ao sofrimento, é possível ser feliz[8]. Em suma, “a virtude consiste em voltar-se para dentro de si e olhar-se a si próprio”

1.3- Vinculada à via purgativa e conducente à via iluminativo e unitiva está a erótica, que sinonimiza com atração amorosa, por parte do Uno, como Beleza. O Uno, kalón em si, e ao mesmo tempo, alguém que chama— kalein, em grego. Pela erótica, a alma transcende o belo corpóreo, com função iniciática, e se eleva ao Belo em si. Quem se apega ao belo corpóreo ou ao corpo belo, para possui-lo e perpetuar a espécie (pelo sexo), é semelhante a Narciso, que encontrou a morte na contemplação da beleza efêmera. O amor das fòrmas é simples condição originaria, que deve ser desvelada, compreendida pela inteligên­cia e transfigurada pelo eu interior. “O eros da alma superior é um deus que a une etemamente ao Bem”.

1.4- Todos os homens, em princípio, têm condições, para guindar-se à contemplação do Bem e à união mais íntima possível com ele. Nem todos, porém, atingem essa meta nesta vida, porque ficam imersos na matéria e se perdem na multiplicidade. Tais homens ignoram o que seja a vida verdadeira da virtude, da renúncia, do áphele pánta.

Em oposição a eles, Plotino arrola três classes de homens, que podem mais facilmente alcançar a contemplação das coisas eternas e do Uno: os músicos os amantes e os filósofos. Vejamos a razão dessa afirmativa plotiniana. O músico encanta-se com o belo da harmonia dos sons e tons os quais resultam em ritmo que embala o espírito. Em lugar de ficar pre­so à materialidade dos sons, o músico deve convencer-se de que a beleza musical repousa, em seu fundamento, numa harmonia inteligí­vel, a qual constitui o Belo em si. Por outras palavras, a harmonia dos sons é uma representação invisível, transcendente. Os sons materiais mediatizam a beleza simplesmente e convidam para escutar a harmo­nia do alto[9].

Se o músico é movido pelos sons, o amante é movido pelo amor (iéros). Este, inicialmente, deriva dum ato da visão (éros provém de hórasis), ministrando uma experiência sensível do belo. A partir dali, é fácil elevar-se ao belo não-material, no qual se incluem as leis justas, os costumes probos, o conhecimento intelectual, as virtudes. Envolto por essa atmosfera, o amante tem as condições para entrar em contato com a Super-beleza — o hiperkalón.

A terceira classe de homens, com posição privilegiada para a contemplação e união com o Uno, é a dos filósofos, porque o filósofo já saiu da caverna e já se encontra no mundo da contemplação.

Esses exercícios dialéticos têm a função de elevar o homem ao reino do puramente espiritual, ao princípio sem princípio.

O retomo da alma ao seu fundamento último — o Uno — é, para Plotino, tão natural como o é a emanação dele. Por isso, não ne­cessita de nenhum dom gratuito ou graça superinfusa, nem de uma intervenção extranatural. O regresso é constitutivo da própria essência do Uno. Isso traz implicações de ordem escatológica, segundo vere­mos a seguir.

 

1 – continua



[2] Enéadas, V

[3] Enéadas, VI

[4] Cf. lliada, I, 6, 8, 16 s. No Teeleto, 176 a-b, PLATÃO escreve: “É preciso elevar- se deste mundo para o alto, o mais rapidamente possível. A fuga de que falamos não é outra do que a uma assimilação da natureza divina, quanto nos é possível; assimilação, sobretudo, se se alcança a justiça e a santidade, com o exercício da inteligência”.

[5] Em nosso entender, PLOTINO jamais foi contrário à participação dos cidadãos na política. Por essa razão, data vertia, não parece correto o que escreveu Max POHLENZ: “Auch von Platos Polisgefuhl hat er nichts mehr. Er widerrüt die politische Tãtigkeit, und die Platonipolis, die er unter des Schirmherrschaft des Kaisers Gallienus in Campanien grtlden wollte, wáre kein platonischer Ideals- taat geworden, aber auch keine Akademie zur Heranbildung statlicher Führer- persõnlichkeiten, sondem eine Lebens — ud Studiengemeinschaft weltabgewan- dter Gelehrter” (Die StoaGeschichie einer geisíigen Bewegimg. 6. Auflage. Gõttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1984, p. 396).

[6] PLOTINO refere-se ao efésio, citando o fragmento nô 96.

[7] Como bom grego, PLOTINO jamais perdeu de vista que todas as coisas depen¬dem da perfeição absoluta e que tudo forma uma unidade. Dentro dessa perspetiva, é mister colocar a sua moral. “Estimant que Tunivers tend à un but, elle (la philosophie) a pensé que 1’hmme, lui aussi, tend à ce but, et que cette tendance le met d’accord avec Tensemble des choses. Ainsi la voie était ouverte à la morale. Car la morale a son fondement dans la métaphysique: le privilége, en métaphy- sique, de la philosophie grecque, s’est accompagné d’un égal privilége en mora¬le” (WERNER, Charles. La philosophie grecque. Paris: Payot, 1946, p. 281).

[8] “Essere felice anche fra i tormenti, nel ‘toro di Falaride’, è, si, possible, perché è V •C possible, anche fra i tormenti fisici, unirsi con l’anima incorporea al Divino in- A corporeo. . (REALE, op. cit., p. 591). A condição, para ser feliz no sofrimento, é que não se perca de vista o Bem, em sua plenitude (Ertéadas, I, 4, 13).

[9] Enéadas, I, 6, 3. Talvez aqui PLOTINO se tenha inspirado em HERÁCLITO, fr. 54: “A harmonia não-manifesta é mais forte do que a (harmonia) manifesta”.

 

Twitter update