Magnani


A MAGIA DO RITO

 

O Despertar gera despertar. Assim como ergue as coisas caídas no espaço nas primeiras imagens de “figuras” e de “sinais”; também desperta a ação e forma o seu”Rito”.

Conheça a magia do Rito como um prolongamento natural daquela da Imagem. Se as “figuras” são fixações sutis das forças invisíveis e luminosas que objetivam-se nas coisas físicas e as movem e as mantêm; e se, em você, acolhê-las é uma rapidez sem tempo apta a fixar a forma de seus movimentos, antes que ela se traduza na língua dos teus sentidos animais; porém no rito, você se une a este movimento e o anima e o prolonga no seu próprio ato: seja para transfundir-lhe a luz da tua liberação, seja, formando-se em você uma nova causa, para agir sobre as correntes e sobre os turbilhões das “figuras”, com a finalidade de reações côngruas.

Conhecimento da Luz etérea, alma psique da natureza, luz-vida, espírito-matéria, interioridade- exterioridade – entenda nisto a condição primária. Por exaltação de entusiasmo, por violência, por desespero, ou por absoluta superioridade, ocorre que entre a trama das coisas e dos seres “mortos” esta Luz tenha aparecido para você de maneira que você saiba evocá-la no espírito. E se nela se acende, se forma, se satura o ato do rito, eis que invisivelmente símbolos viventes, deuses, potências gloriosas e sem número se moverão e se cruzarão no alto e um equilíbrio se dissolverá, outro se reorganizará e se fixará, rigorosamente ritmado sobre a forma e sobre a força do próprio ato.

Os sinais e os ritos – diz Eliphas Levi – são o Verbo operante da vontade mágica. A vontade deve exprimir-se na ação-rito como em um Verbo perfeito. Uma única negligência, palavra inútil, incerteza, ou desatenção ou dúvida atinge com falsidade ou impotência toda a operação e as forças convocadas se voltam contra você.

Quando o gesto se “realiza”, ele é realidade. Esta é a lei. E da “realização”, por sua vez, a Luz etérea é a chave como eu te direi agora.

Quando o teu desejo ou a tua vontade alcançam uma força extrema, são ligados a uma representação intensa, que é a ideia da realização ou do movimento e, ao mesmo tempo, já são um esboço, um início efetivo justamente deste movimento no qual esta tende a traduzir-se.

O mago se desvincula e sobe mais alto, e suspendendo a sensibilidade periférica, isolando-se em êxtase ativo do corpo e então do externo, vê luz. No contato com esta luz a representação alcança uma super-saturação do impulso dinâmico, juntamente com um sentido absoluto, irrefragável, fatal, de certeza.

Então no gesto ritual o impulso torna-se ato, projeta-se em ato, e confirma, testemunha, realiza esta certeza, inserindo-a, impondo-a no externo. Este lança uma força no externo, através de um mediador que não conhece a lei do espaço e da resistência, força ou massa material. Então a realização se efetiva: você verá em silenciosa obediência e exterioridade invisível a reação mover- se, produzir-se.

Como na magia da imagem, assim também na ação ritual saiba que a “similaridade” é o eixo: o rito exprimindo no veículo diversos nós complexos de forças fluídicas o próprio ata consciência, que na magia mental age sobre a “figura” dos elementos ou sobre a representação analógica do evento. Por isso, antes de mais nada, você deve evocar e plasmar simpaticamente na mente exaltada a forma daquilo sobre a qual quer agir, até que por indução conduzido até um estado de relação com o seu espírito astral, você possa impor o comando.

Pense, por analogia, àquelas experiências eletromagnéticas, onde se constata que em um circuito descarregado convenientemente disposto se induz uma improvisa corrente, no instante que um outro circuito, distinto e distante, se fecha. Na corrente principal, aquela que anima este circuito, você pode imaginar o desejo que vai saturando a imagem até que, no gesto ritual, acontece o clarão, a liberação do ato, e neste instante de luz-evidência a força se projeta naquele outro circuito em sintonia, que aqui é a própria “figura” oculta da coisa. Porém nesta figura o comando lampejando, não mais só na tua mente, uma côngrua realização desce até o plano real e objetivo.

Para se ter poder sobre as formas, que servem a própria vontade, ocorre então que você saiba penetrar no “pensamento” que as produz, e apropriar-se delas. Ocorre que você saiba evocar. Evocar um espírito – diz Eliphas Levi – significa entrar no pensamento dominante deste espírito, fixado pelas “figuras”, pelos “sinais” e pelos pentáculos; e se, neste mesmo sentido, você sabe se elevar mais alto, levará com você este espírito e ele te servirá. Caso contrário porém, será ele a levar você para o seu círculo, e será você que o servirá: mesmo sem perceber.

“O semelhante produz o semelhante” – “Evoque”- “Para produzir um efeito, imite-o”: então compreenda o porque da interminável variedade dos ritos que nos povos primitivos obedece a estes princípios da magia “homeopática” ou “simpática”. E você estará próximo de saber quantas supertições existem, naqueles que aqui sabem só falar de superstição. É que no estado de mágica exaltação, ou êxtase, ou de violento desejo, a lei de separação entre eu e não-eu interrompendo- se, a imitação produz uma comunicação real e o ato, a sensação, o movimento se projetam e operam rapidamente como forças da própria realidade, ou dos outros, sobre os quais vibre a tua magia. A imagem dá vida ao rito; o rito, por sua vez, reage sobre a imagem, a acende, a exprime, multiplica a sua luz e oculta a sua potência.

Eis então os ritos de imitação – pontos de apoio para a evocação e a fixação no fogo mental, e instrumentos para a projeção; e assim você escuta quem, em tempos arcaicos ou ainda hoje os povos distantes, desata nós e sopra, para soltar o vento; quem derrama água para invocar a chuva, ou se molha, como a árida terra pede as águas que venham do alto; e imitar raios e trovões para atrair a tempestade; e a dança selvagem das mulheres, para a animação e a irresistível força dos homens distantes na guerra; e através das grandes luzes das estações, a orgia e o estupro para desenfrear e excitar os obscuros poderes de crescimento, onde aparecem viçosas colheitas; e no sacrifício cruento invocar o místico poder que arranca da vida animal e consagra na imortalidade; e ainda, não remotos mas próximos, você verá magos criarem na cera as efígies daqueles sobre os quais querem operar, e sobre estes vibrar ritualmente os seus atos de morte ou de vida ou de encantamento; ou estes próprios dramatizarem aquilo que outros por força mágica farão; e atirar pedras, ou cuspo, para descarregar o cansaço, terror ou falta de ar; e usar a espada contra o invisível, que nenhuma ponta nunca alcançou; e lentamente dobrar a madeira até o rompimento pela vontade de destruição, fixada no fogo mental em pessoas ou coisas. E a voz, como expressão, sendo já, eminentemente, rito, você ouvirá da magia do Verbo: palavras sagradas que te dariam o

poder sobre os elementos, sobre as cidades, sobre os deuses; nomes ocultos, aos quais está ligada a própria alma de quem os usa, como a chama na madeira. Um único sentido, em tudo isso: gesto- expressão evocatório que forma e magnetiza a imagem na Luz – e a projeta para o externo.

Você vê, então, concretizar-se um fundo, sobre o qual a pequena figura do homem joga sombras gigantescas. Eis que do risível drama, com o qual ele reproduz os grandes fenômenos da natureza clareira de floresta, em charneca deserta, na praia com muito vento, na claridade alpestre ou em um fogo subterrâneo, de um tal risível drama emanam irresistíveis forças de simpatia, que são o centro, e o eixo, de um drama cósmico. O rito tira a sua ação do infinito e lança ao infinito: na Luz etérea, que lhe dá ressurreição, esta se livra do humano, torna-se arrepio que serpeia pelos membros do Homem Cósmico, e as movimenta.

Em tudo isso, então, você conhece a exaltação até o êxtase de luz, como condição. O Rito, dorme, antes disso. E se você tem esperança nele, e não sabe que ele é magia só como veículo-expressão de um estado de verdade – de “fé”, se prefere – ou seja: um sentido de poder fazer, sentir que aquilo que deve ser não “deve” ser, mas É; se você espera e opera não sabendo isso, não realizando isso – e para realizá-lo o contato é necessário – você será somente um iluso por ridícula superstição.

Muito menor “fixação” da alma e das suas potências com respeito ao corpo físico, com relativa muito maior facilidade de isolá-lo; preponderância quase exclusiva da imaginação sobre a cerebração em pedaços de interferência natural entre interior e exterior, entre eu e natureza; e sugestionabilidade, profunda selvagem violência de desejo e de emoção – telúrica, mais do que humana – por causa destes elementos na psique primitiva quase espontaneamente os ritos abriam vias e irradiavam um mágico poder; e ao invés, através dos próprios ritos, um tal poder retrocede em um mito, na pálida vida dos modernos “civilizados”.

ABRAXA

UR, 1928

 

 

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