Magnani

O MÁGICO PAPEL DA MÚSICA

 

Recebemos de um caro e fraterno amigo a indicação do livro “Musica e filosofia nel pitagorismo” de Alessandro Barbone e publicamos o capítulo dedicado à importância da música para o equilíbrio do corpo e da alma. Esperamos que seja de grande ajuda para os nossos atentos leitores. (E.A.S.)

 

Na “Vida pitagórica” de Giamblico se lê uma simpática história sobre o pitagórico Eurito, a propósito da música sepulcral:

 “Eurito de Crotona, discípulo de Filolau, a um pastor que lhe contava ter ouvido por volta do meio-dia a voz de Filolau sair da tumba em forma de canto – e isto aconteceu, quando Filolau já tinha falecido há muitos anos – ‘Por todos os deuses!, exclamou, e com que arranjos?’.”

Eurito deseja muito saber de que maneira a alma de Filolau cantou, porque com certeza aquele canto é de natureza divina, se a emiti-lo foi um beato que participa do banquete dos deuses: conhecer a harmonia da qual se compõem as melodias divinas dos beatos significa alcançar a sabedoria dos deuses, conhecer as relações matemáticas das quais ela se compõe e poder usufruir dela como cura para a própria alma contra as turbulências da vida terrena, podendo abrir, para citar o Cipião do “Somnium” de Cícero, as portas do céu. Era ouvindo a harmonia dos astros que Pitágoras compunha as melodias com as quais acalmava as paixões dos seus estudantes reequilibrando as suas almas: podemos supor que na tradição pitagórica a música dos beatos e a música dos astros fossem a própria música divina.[1]

A crença no valor mágico da música foi típica da escola pitagórica, para a qual a música é considerada um instrumento para a cura da alma e do corpo, então meio catártico e terapêutico; no pitagorismo a música assume com efeito a condição de um medicamento, válido seja para a alma seja para o corpo. E na escola pitagórica esta crença, bem mais antiga do que a filosofia itálica, conquistou aquela respeitabilidade que lhe garantiu a benevolência de todos os filósofos que se ocuparam da música, principalmente com relação à educação do cidadão.

Entre os principais herdeiros do pitagorismo, neste campo, se destaca o nome de Platão. Uma prova do valor mágico reconhecido por Platão à música se encontra no Cármides, onde Sócrates, se passando por um médico e fingindo possuir o remédio para a dor de cabeça do jovem Cármides, afirma conhecer uma planta medicinal, cujo efeito resulta porém vão se não é acompanhado por um canto mágico: só as notas deste canto possuem o poder de ativar os princípios medicamentosos da planta, agindo na alma e dispondo-a a acolher o medicamento.[2] A crença subentendida neste trecho do Cármides é aquela típica da medicina antiga, comum a todos os povos com fé nos espíritos: a doença do corpo é uma consequência de uma desordem geral que investe sobretudo a alma, por isso a cura do corpo tem que passar através da cura da alma; o papel da catarse musical se insere plenamente neste âmbito cultural próprio da antiga medicina[3].

A este ponto queremos citar um longo trecho da “Vita pitagorica” de Giamblico, porque ele nos permite, pela característica típica desta obra, ter uma visão geral das crenças pitagóricas sobre o papel catártico da música, para depois a partir daqui continuarmos a analisar cada aspecto da questão, referindo-nos a outras fontes e a outros autores:

 [Pitágoras] achava que a música também fornece uma notável contribuição para a saúde, toda vez que nos dedicarmos a ela de maneira adequada. De fato a considerava um meio nada secundário de se conseguir a “catarse”. Era este o nome que dava à cura operada através da música. Na primavera dava este exercício musical: fazia com que no meio de uma roda se sentasse um tocador de lira, e entorno dele se sentavam os cantores e assim, com o som da lira, cantavam juntos hinos que consideravam pudessem trazer-lhes alegria, harmonia e ordem interior. Mas também em outros períodos do ano os pitagóricos se serviam da música como meio de cura. Existiam determinadas melodias, compostas para as paixões da alma – os estados de desânimo e de depressão – que achavam ser de grandíssima ajuda. Outras eram para a ira e excitação e qualquer outra perturbação semelhante da alma. Além disso existia uma música de gênero diferente, inventada com a finalidade de contrastar o desejo. Os pitagóricos também costumavam dançar, e o instrumento que usavam para esta finalidade era a lira, porque o som da flauta era considerado por eles violento, apto para as festas populares e totalmente indigno de homens de condição livre. Para favorecer a correção da alma costumavam também recitar versos escolhidos de Homero e de Hesíodo. Conta-se também que uma vez Pitágoras, que naquele momento estava ocupado com os seus afazeres, conseguiu acalmar, graças a uma composição solene daquelas usadas durante as libações que fez executar pelo flautista, a fúria do jovem bêbado de Tauromenio (força taurina, ndt). Ele estava louco no meio da noite por causa da sua amada e estava para atear o fogo na porta da casa de um rival no amor; de fato, ele tinha sido excitado por uma melodia frígia para flauta. Pitágoras então, que estava ocupado, no meio da noite, com os estudos sobre a astronomia, ordenou ao flautista de passar para o ritmo das composições de libação, e com isto fez com que imediatamente o jovem interrompesse os seus impulsos […]. Além disso toda a escola pitagórica realizava aquelas que se chamavam as “preparações”, e a “harmonização” e a “correção” através de certas melodias adequadas para as diferentes finalidades, com as quais modificavam utilmente os estados da alma, suscitando os sentimentos inversos. De fato, no momento de irem dormir purificavam a mente dos ecos das turbulências do dia através de cantos e de melodias particulares, e assim conseguiam ter um repouso tranquilo acompanhado por poucos e bons sonhos. Também quando se levantavam se liberavam do torpor da cama e da sonolência graças a cantos de um gênero diferente e às vezes a melodias sem palavras. De acordo com o que se diz, certas vezes curavam alguns estados da alma cantando fórmulas mágicas: e é verossímil que deste fato seja de uso comum o termo “encantamento” (carmina). Foi assim então que Pitágoras fez do melhoramento do caráter e da vida dos homens realizado através da música um meio de grandíssima utilidade.[4]

O papel catártico da música era tão importante para os primeiros pitagóricos, que Schuhl pôde afirmar que o interesse deles pela música derive principalmente deste fato. Sem dúvida existe uma verdade nesta tese, se bem que as implicações entre a música e a matemática tenham jogado um papel também este decisivo. Justamente este duplo modo de olhar para a música, de um lado como disciplina eminentemente matemática, na qual a natureza do número se revela claramente como o fundamento da harmonia, e do outro como principal prática catártica, capaz de influir nos afetos da alma, dá razão à tese historiográfica segundo a qual a escola pitagórica não foi nem somente instituição científica, nem somente escola filosófica, mas as duas coisas. Sem um estudo da sua teoria musical, nas várias formas que esta assumiu de acordo com o âmbito disciplinar no qual a música era inserida, nos é impedida a possibilidade de compreender a mentalidade dos pitagóricos: a mentalidade dos pitagóricos foi essencialmente musical, o espírito do pitagorismo reside na sua poliédrica teoria musical. E depois o fato que a música fosse tratada pelos pitagóricos como uma disciplina essencialmente matemática, que além disso a astronomia fosse tida em altíssimo grau para a teoria da harmonia dos astros, tudo isso demonstra não que os pitagóricos foram antes de mais nada matemáticos e astrônomos, mas confirma a tese do caráter eminentemente musical de seu pensamento.

Então não simples meio de prazer, a música mereceu um lugar de honra entre as disciplinas ensinadas na escola pitagórica em virtude da sua utilização mágica-religiosa;[5] Porfírio nos lembra isto abertamente, quando escreve: “Pitágoras exercia um poder mágico nas inclinações da alma e do corpo, que acalmava com o auxílio de música rítmica, cantos e fórmulas encatatórias”. Mas mais do que mágica, aquela de utilizar a música para purificar as almas era também e sobretudo uma prática religiosa, porque os efeitos que Giamblico chama preparação, correção, harmonização da alma, termos que podem ser resumidos em catarse, são compreendidos somente se inseridos em um discurso religioso: A alma, que é aquela que nos torna semelhantes aos deuses, deve continuamente esforçar-se para elevar-se da terra para estar o mais possível próxima dos Celestes, em um processo de auto-divinização que passa através da liberação de todas as correntes que a emprisionam ao corpo. O elemento corpóreo-psíquico que é reconhecido em todas as religiões como sendo o principal responsável pela corrupção espiritual do homem são as paixões: a música, para os pitagóricos, era uma das vias mais praticadas para se conseguir a liberação das paixões.

De Ruggiero atribuía às purificações pitagóricas um íntimo significado moral, o que é correto, a menos porém que o significado moral seja visto como sendo parte integrante do religioso: uma moral separada da religião não é concebível no âmbito da cultura pitagórica.

A importância do encantamento é fundamental no pitagorismo original, e a escola conservou este aspecto mágico do seu ensinamento também durante o seu desenvolvimento posterior, até mesmo na época helenística-imperial, quando, após ter desaparecido o vínculo de escola e a forma mais propriamente científica, todavia continuou existindo o semblante místico-religioso da tradição pitagórica. A música instrumental e o canto, graças aos seus códigos de práticas privilegiadas para a execução dos encantamentos curativos da alma e do corpo, surgem como instrumentos mágico-religiosos.

 

Fonte: Alessandro Barbone – Musica e filosofia nel pitagorismo – La scuola di Pitagora editrice, Nápoles 2012.

Tradução de Emirene Armentano Sestito.

 


[1] Cfr. A. Delatte, La musique au tombeau dans l’antiquité, na “Revue archeologique”, 21, 1913, págs. 318-332, o qual, analisando numerosos vasos e baixos-relevos gregos nos quais estão representados personagens tocando um instrumento musical ao lado de uma tumba, afirma que estas representações exprimam a crença religiosa que a música seja a principal ocupação dos beatos; assim conclui Delatte: “Os cantos e a música instrumental são a principal ocupação dos beatos. Que no fundo desta crença exista uma concepção muito comum que todos ainda compreendem, ou seja aquela do prazer que a música traz, é evidente; mas uma ideia mais profunda pelo menos provavelmente se fundiu com aquela comum: aquela do valor mágico da música. A importância extraordinária que lhe é reconhecida para a saúde do corpo e da alma, por exemplo para os pitagóricos, é um índice certo”.

[2] Carm. 155 e: “Quando me perguntou se eu conhecesse o remédio para a cabeça […], eu respondi que era uma certa planta, mas que, além do medicamento, tinha um canto mágico; e se era cantado enquanto se usava o medicamento, o medicamento curava completamente; sem o canto mágico a planta não tinha nenhuma utilidade”. Explicamos a palavra  ep§dé como sendo “canto mágico”, porque este justamente significa também em italiano o termo encantamento, com o qual comumente se traduz ep§dé  Em um papiro de Herculano de Filodemo de Gadara (I séc. a. C.) se lê uma simpática história sobre as últimas horas de Platão, na qual se refere ao uso farmacêutico do canto e da música: “Platão, já velho, acolheu um hóspede caldeu, capaz de executar alguns cantos mágicos, já que Platão estava com febre. Este, acompanhado por uma flautista de Trácia, querendo entoar um canto, começou a dar o ritmo com um dáctilo. Imediatamente Platão gritando lhe perguntou se estava ficando louco, e perguntou-lhe [como tinha tido esta ideia]. O flautista então lhe respondeu: Você pode bem observar como a natureza bárbara continua irremediavelmente ineducável, porque “O ouvido dos bárbaros não tem ritmo, e não sabe colher nenhum ímpeto”, Platão ficou feliz, e todo contente cumprimentou-o por aquele verso tão espontâneo, e também por tê-lo recitado [sem hesitar].

Logo em seguida, já com a febre mais alta causada por um improviso despertar noturno, e mal conseguindo respirar, a sua alma abandonou o corpo”, para a obra de Platão, cfr. G. Casertano, Magia, incantesimo e filosofia in Platone, em L’eterna malattia del discorso, Liguori, Nápoles 1991, págs. 76-80.

[3] Cfr. P. Boyancé, Le culte… cit., págs. 103-105. Boyancé recorda que as práticas de purificação eram típicas dos povos selvagens e primitivos, porque eram baseadas na crença que as doenças tenham sempre uma causa invisível e espiritual, isto é, sejam a consequência de uma impureza do espírito e que por isso deve ser purificada.

A virtude do medicamento, então, é sempre, antes de ser de natureza fisiológica, sobretudo de natureza mística. E “os pitagóricos certamente não eram os únicos na Grécia a terem esta concepção da doença e da medicina”. Quando Giamblico diz que os pitagóricos “às vezes curavam certos estados patológicos da alma cantando fórmulas mágicas” (Vit. Pyth. 114), refere precisamente esta concepção da doença e da medicina.

[4] Iambl. Vit. Pyth. 110-114. Cfr. também Iambl. Vit. Pyth. 64- 68, e Porph. Vit. Pyth. 30-33

[5] É interessante notar que Platão, como um verdadeiro pitagórico, nas L. II, 655 c-d considera sagrada uma concepção ética da música, e ímpia a concepção hedonística comum à sua época: dizer que “a regularidade da música consiste em dar prazer à alma” é “inaceitável e completamente sacrílego” e “se alguém introduzirá outros hinos ou cantos a estes já estabelecidos, os sacerdotes e as sacerdotisas juntamente com os protetores  das leis o proibam, e tal proibição seja por motivos de santidade e seja conforme às leis, e se quem tiver sido impedido não aceita voluntariamente esta proibição, qualquer pessoa que assim o desejar possa acusá-lo de impiedade durante toda a sua existência (799 b)”.

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