Magnani


O FUTURO DO BRASIL

Este artigo faz parte de uma coleção de escritos que foram publicados no livro “Supremo Vero” de Manlio Magnani, pela “Associazione Culturale Ignis”.

Considerando-se a atual situação política do Brasil, este artigo de 1937 pode ser de ajuda para uma análise séria e profunda da crisi moral e institucional que o Brasil está vivendo.  

Na verdade, a mensagem final de Magnani é otimista sobre o futuro do Brasil e esperamos que seu otimismo se baseie não apenas em seu grande sonho filosófico e espiritual, mas em uma mudança real de vida que, mais cedo ou mais tarde, terá que acontecer.

 

 

É permitido a um filósofo da História, provisoriamente hóspede da grande República americana, exprimir as suas íntimas convicções sobre o presente e sobre o futuro do Brasil?

Acredito que sim. E me preparo para escrever as minhas convicções porque admiro e amo o Brasil, porque nesta terra maravilhosa e estando no meio deste povo privilegiado sinto vibrar as forças criadoras de um imenso destino.

Há mais de vinte anos eu renunciei a publicar os meus escritos. Somente o contato com aquele prodígio de beleza e força que é o Brasil e a clara percepção que está se formando para ele um futuro incomparável, puderam operar em mim a profunda mudança que me induz a pegar novamente em uma caneta.

Que o leitor me perdoe a digressão e venhamos ao argumento.

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A situação mundial pode ser resumida assim:

- A Europa chegada às horas críticas da velhice está ocupada com um trabalho importantíssimo: aquele de rejuvenecer, e as suas energias de vida operam em tal sentido com grande fervor;

- A Ásia está elaborando alguma coisa de enorme através das vicissitudes de seu próprio despertar depois de uma milenar letargia. Está próximo o despertar, iminente; este despertar será formidável quando terá se realizado o peso asiático sobre a vida mundial. Vive agora a vigília do completo despertar. O Japão enquanto talvez acredite preparar uma conclusão, é ao contrário um portador, muito eficaz, de estímulos para o despertar. A primeira a despertar será a China, depois a ĺndia, depois… enfim a Ásia inicia uma nova era histórica;

- a América do Norte é um mastodonte consagrado ao fracasso. Colocada entre a Europa e a Ásia ela não soube entender os seus rumos, e não soube ou não pôde nem mesmo intuir o caminho para seu próprio destino . Mentalidade e sentimento focalizados sobre meras aparências de vida e não sobre várias atividades e essências de vida, provará somente os esplendores fáceis de benefícios transitórios obtidos através de reflexos de atividades históricas que continuaram a ser estranhas para ela. Nada de diferente, nada além disto.

Porém estes três continentes representam somente um hemisfério terrestre.

Para que um equilíbrio mundial seja possível, e para que o jogo da translação das civilizações sobre o planeta seja completo é necessária também a participação do outro hemisfério. Agora a vida em nosso planeta tem respiração e ritmo universais, não pode ficar localizada próxima a um só polo.

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De fato a América do Sul sente ser chamada para funções mundiais, talvez funções ainda não bem compreendidas pelas mentes, porém pressentidas pelos povos, intuídas pelas inteligências.

Europa, América do Norte, e o agente mais ativo do despertar asiático, o Japão, apontam a atenção sobre a América do Sul com curiosidade, interesse, prevenção e também com uma vaga sensação de temor.

Na América do Sul todo profundo observador o qual seja acostumado a considerar os fenômenos nas causas e em seus desenvolvimentos, – e não somente nas aparências como é próprio de uma certa fácil e vaga ciência – descobre fácilmente o férvido operar de impulsos vitais cujo jogo procede com firmeza, fortemente e com coordenação inegável, mesmo que as aparências possam dissimulá-la ou ocultá-la. Nada de igual se manifestou durante a formação da potência Norte Americana. Lá operavam impulsos menos profundos, os quais depois se confundiram com aquilo que eu chamei antes de reflexo de atividades históricas que continuaram estranhas. E por isto aquela potência será sempre instável, extremamente traiçoeira, estéril de eficácia históricamente e mundialmente duradoura ou geratriz de eventos de ampla potência.

O Brasil se apresenta de uma maneira especialmente típica. Para expressá-la eu me sirvo de um conceito comum a muitos estudiosos mesmo que não seja suficientemente difundido: o Brasil é a América do Sul inteira. Não é preciso dar às palavras um sentido comumente político; aqui falamos das forças íntimas, profundas da vida.

Eu considero o conceito o Brasil é a América do Sul inteira por si só tão evidente que a sua veracidade não precisa de demonstração. Então não é para dissertar sobre esta verdade evidente que eu escrevo.

Existe neste conceito muito mais; e agora peço aos homens brasileiros de pensamento um pouco de sua atenção.

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A maravilhosa realidade que está em processo de elaboração no Brasil tem valor e sentido não somente Sul-Americanos, não sómente americanos, mas universais.

No Brasil, e só no Brasil, se manifesta, em desenvolvimento perfeitamente observável um processo de formação étnico-psicológico ao qual não posso, não sei encontrar confrontos.

Todos os povos – com exceção do Brasileiro – oferecem aspectos equivalentes, não obstante aparentes e por isto superficiais diferenças, naquela que podemos considerar a nota falsa de seus desenvolvimentos. Aqueles aspectos, por mais que sejam numerosos, nós podemos incluí-los em três categorias principais:

- relativismo e unilateralidade;

- involuntária, inconsciente escravização a correntes, tradições ou modos já estabelecidos, próprios ou importados;

- superficialidade.

Sem dúvida o mundo deve ao prevalecer absoluto nas nações velhas e novas de uma ou mais destas características, a impotência para resolver as questões mais importantes e gerais, males gravíssimos do presente momento.

Ao invés de pensar em crises econômicas ou políticas ou morais, quando consideramos o mundo atual – especialmente nos últimos cinquenta anos – seria mais apropriado pensar em uma verdadeira insuficiência étnico-psicológica. Cuja insuficiência foi e é a causa pela qual nenhum país e nenhum grupo político tenha podido compreender em tempo como na base de todas as questões de hoje exista uma causa mais vasta, absolutamente mundial, aonde encontram origem todos os problemas, questões debatidas, e aonde fatalmente todos precisam ser resolvidos. A falta ou até mesmo somente a imperfeição de uma tal compreensão inibe que se possa inventar meios aptos para as soluções adequadas.

Nos momentos mais solenes e trágicos da história verificou-se o aparecimento de um novo explendor de vida e de civilização, justamente quando entre os povos competidores, um se manifestou capaz de sentir mais universalmente, e então capaz de levar-nos para as suas concepções e para os desejos ousados para um ponto mais longe, para uma ordem mais geral de todos os particularismos e relativismos conhecidos.

A origem e o estabelecer-se das grandes épocas sucessivas de civilização na história da humanidade, vos demonstra a exatidão deste princípio. As civilizações de Roma, Grécia, Egito, Pérsia, Extremo Oriente, todas foram sempre assim. Até mesmo a salvação da qual desfrutou a Europa no final da Idade Média, e que conduziu depois às possibilidades da grandiosa América, deve-se justamente ao repetir-se do mesmo fenômeno.

Ora, aonde encontrar hoje as possibilidades de uma tal elevação? do surgir de uma visão apta a atingir a base mais profunda dos fenômenos? do surgir de inteligência e vontade de ação capaz de traçar o sulco no qual curso possa e deva desenvolver-se um novo ciclo de civilização?

Todas estas possibilidades eu as vejo no Brasil, na nação Brasileira.

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Um complexo processo étinico-psicológico muito amplo para poder ser descrito em um artigo – , que se desenrola no Brasil, favorecido extraordinariamente pelas condições naturais e geográficas, é “substância” da minha fé e “razão” das minhas afirmações.

A atenção que pedi pouco antes aos homens Brasileiros de pensamento, eu gostaria que fosse direcionada a observar melhor o quanto a inteligência e o sentimento brasileiros estão forjando lentamente sob este sol quente em meio a uma exuberância verde e florida da natureza muito bonita. É um fluir de pensamento e de sentimento em ritmos sempre mais amplos, em ritmos que vão longe e se alargam em distâncias infinitas como as ondas do mar agitado. E não obstante fica, como diria o antigo Poeta, “fixo em seu centro”, isto é fixo em uma maravilhosa unidade fundamental, básica.

As improvisações modernas de todo gênero, especialmente aquelas da economia, da técnica e da literatura e dos costumes, em uma palavra as modernas improvisações da vida artificial, chegam aqui também, assim como em todos os lugares. Os fantasmas antigos e novos também estão presentes aqui assim como em qualquer outro lugar. Não se fala das coisas mais profundas, mas delas não se fala em nenhum lugar do mundo. A alma Brasileira não é seduzida pelas improvisações nem pelos fantasmas. É a única a não sofrer esta sedução. Por que?

As coisas mais profundas, isto é a realidade do espírito e as verdades essenciais da vida, aquelas que agora não encontram uma maneira para expressar-se na filosofia ou na arte, agem na alma Brasileira, lhe dão a virtude de aproximar-se do novo e deter-se sobre o antigo com um senso de jogo, um senso de senhor que sabe ou sente de não estar ligado nem a um nem ao outro, que sabe de ser sí mesmo e naquele ser sí mesmo está pressentido todo o futuro.

Qual futuro?

Analisem profundamente o sereno olho do brasileiro, o jovem ou o velho, indaguem o secreto vigor espiritual que está no profundo de sua alma, e poderão adivinhá-lo. A profundidade e a vastidão da descoberta se revelarão com um senso de universalidade.

E isto nos garante que no Brasil de hoje começa o mundo americano de amanhã.

São Paulo 22/IX/1937                                                                                                                                                                                    Manlio Magnani

 

 

 

 

 

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