Magnani


CONSIDERAÇÕES SOBRE A INICIAÇÃO

de René Guénon

Prefácio

Desde diversas partes e em várias ocasiões, foi-nos pedido reunir em um volume os artigos que fizemos aparecer na revista Études Traditionnelles, sobre questões que se referem diretamente à iniciação; não nos foi possível dar satisfação imediata a essas demandas, já que estimamos que um livro deve ser mais que uma simples coleção de artigos, e isso ainda mais quando, no caso presente, esses artigos, escritos ao fio das circunstâncias e freqüentemente para responder a perguntas que se nos faziam, não se encadeavam à maneira dos capítulos sucessivos de um livro; assim, era necessário retocálos, completá-los e dispô-los de outro modo, e isso é o que fizemos aqui.

Além do mais, isso não quer dizer que tenhamos querido fazer assim uma espécie de tratado mais ou

menos completo e em certo modo «didático»; rigorosamente, isso seria ainda concebível, caso se tratasse só de estudar uma forma particular de iniciação, mas, desde que se trata, pelo contrário, da iniciação em geral, seria uma tarefa completamente impossível, já que as perguntas que se podem fazer a este respeito não são em número determinado, posto que a natureza própria do tema se opõe a toda delimitação rigorosa, de sorte que não se poderia ter a pretensão de tratá-las todas e de não omitir nenhuma.

Em suma, tudo o que se pode fazer é considerar alguns aspectos, colocar-se sob certos pontos de vista, que, certamente,inclusive se forem aqueles cuja importância aparece mais imediatamente por uma ou outra razão, não obstante deixam fora deles muitos outros pontos que seria igualmente legítimo considerar; por isso é pelo que pensamos que a palavra «percepções» era a que podia caracterizar melhor o conteúdo da presente obra, ainda mais quando, inclusive no que concerne às questões tratadas, sem dúvida, não é possível «esgotar» completamente nenhuma sozinha.

Além disso, não se poderá dizer que não se podia tratar de repetir aqui o que já dissemos em outros livros sobre pontos que se relacionam com o mesmo tema; devemos nos contentar remetendo o leitor a eles cada vez que seja necessário; além disso, na ordem de conhecimento ao que se referem todos nossos escritos, tudo está ligado de tal maneira que é impossível proceder de outro modo.

Acabamos de dizer que nossa intenção foi essencialmente tratar questões concernentes à iniciação em geral; assim, deve se entender bem que, cada vez que refiramos a tal ou qual forma iniciática determinada, fazêmolo unicamente a título de exemplo, a fim de precisar e de fazer compreender melhor o que, sem o apoio destes casos particulares, correria o risco de permanecer muito vago. Importa insistir nisto, sobretudo

quando se tratar das formas ocidentais, a fim de evitar todo equívoco e todo mal-entendido: se fizermos bastante freqüentemente alusão a elas é porque as «ilustrações» que daí podem ser tiradas nos parecem, em muitos casos, ser mais facilmente acessíveis que outras à generalidade dos leitores e, inclusive, já mais ou menos familiares para certo número deles; é evidente que isso é inteiramente independente do que cada um possa pensar do estado presente das organizações pelas quais estas formas iniciáticas são conservadas e praticadas.

Quando alguém se dá conta do grau de degeneração ao qual chegou o ocidente moderno, é muito fácil compreender que muitas das coisas da ordem tradicional, e com maior razão da ordem iniciática, quase não podem subsistir nele mais que no estado de vestígios, quase incompreendidos por aqueles mesmos

que têm sua custódia; além disso, isso é o que faz possível a eclosão, ao lado destes restos autênticos, das múltiplas «contrafações» que já tivemos a ocasião de falar em outra parte, não sendo mais que em semelhantes condições onde podem iludir e conseguir fazer-se tomar pelo que não são; mas, seja como for, as formas tradicionais permanecem sempre, em si mesmas, independentes das contingências.

Adicionamos também que, quando nos ocorrer considerar ao contrário essas mesmas contingências e falar, não já de formas iniciáticas, mas sim do estado das organizações iniciáticas e pseudo-iniciáticas no ocidente atual, apenas enunciaremos a constatação de fatos que evidentemente não nos tocam em nada, sem nenhuma outra intenção ou preocupação que a de dizer a verdade a esse respeito como para qualquer outra coisa que tenhamos que considerar no curso de nossos estudos, e de uma maneira tão inteiramente desinteressada quanto é possível. Cada um é livre para tirar disso as conseqüências que lhe convenham; quanto a nós, não estamos encarregados, de maneira nenhuma, de levar ou de tirar aderentes a nenhuma organização, qualquer que seja, não comprometemos a ninguém a pedir a iniciação aqui ou acolá, nem tampouco a abster-se disso, e estimamos inclusive que isso não nos concerne e que tampouco poderia entrar em nosso papel.

Alguns se surpreenderão possivelmente de que nos creiamos obrigados a insistir bastante nisso, e, para falar a verdade, isso deveria ser efetivamente inútil se não fora necessário contar com a incompreensão da maioria de nossos contemporâneos, e também com a má fé de um enorme número deles; desgraçadamente, estamos muito habituados a nos ser atribuída toda espécie de intenções que jamais tivemos, e isso por pessoas que vêm dos lados mais opostos, ao menos na aparência, para não tomar a este respeito todas as precauções necessárias; por outra parte, não pretendemos adicionar as suficientes, pois, quem poderia prever tudo o que alguns são capazes de inventar?

Ninguém deverá se surpreender tampouco de que nos estendamos freqüentemente sobre os enganos e as confusões que são cometidos mais ou menos usualmente a respeito da iniciação, já que, além da utilidade evidente que há em dissipá-los, é precisamente ao constatá-los que fomos levados, em muitos casos, a ver a necessidade de tratar mais particularmente tal ou qual ponto determinado, que sem isso teria podido nos parecer claro ou ao menos não ter necessidade de tantas explicações. O que é bastante digno de precisão,

é que alguns destes enganos não são cometidos só por profanos ou pseudo-iniciados, o que, em suma, não teria nada de extraordinário, mas também por membros de organizações autenticamente iniciáticas, e entre os quais os há inclusive que são considerados como «luminárias» em seu meio, o que é possivelmente uma das provas mais contundentes desse estado atual de degeneração ao qual fazíamos alusão faz um momento. A este propósito, pensamos poder expressar, sem correr muito risco de ser mal interpretado, o desejo de que, entre os representantes destas organizações, encontrem-se ao menos alguns a quem as considerações que expomos contribuam para restituir a consciência do que é verdadeiramente a iniciação; além disso, a este respeito, não mantemos esperanças exageradas, como tampouco para tudo o que concerne mais geralmente às possibilidades de restauração que o Ocidente pode levar ainda em si mesmo. Entretanto, há certamente a quem o conhecimento real faz mais falta que a boa vontade; mas esta boa vontade não basta, e toda a questão seria saber até onde é suscetível de estender-se seu horizonte intelectual, e também se estiverem bem qualificados para passar da iniciação virtual à iniciação efetiva; em todo caso, quanto a nós, não podemos fazer nada mais que proporcionar alguns dados dos que se aproveitarão possivelmente aqueles que sejam capazes e que estejam dispostos a tirar partido deles na medida em que as circunstâncias o permitam.

Certamente, esses não serão nunca muito numerosos, mas, como já tivemos que dizê-lo freqüentemente, não é o número o que importa nas coisas desta ordem, provido não obstante, nesse caso especial, que seja ao menos, para começar, o que requer a constituição das organizações iniciáticas; até aqui, as poucas experiências que se tentaram, em um sentido mais ou menos próximo do que aqui se trata, a nosso conhecimento, não puderam ser impulsionadas, por razões diversas, o suficientemente longe para que seja possível julgar os resultados que seriam obtidos caso as circunstâncias tivessem sido mais favoráveis.

Além disso, está bem claro que o ambiente moderno, por sua própria natureza, é e será sempre um dos principais obstáculos que, indevidamente, deverá encontrar toda tentativa de restauração tradicional no ocidente, tanto no domínio iniciático como em qualquer outro domínio; é certo que, em princípio, este domínio iniciático deveria, em razão de seu caráter «fechado», estar ao abrigo dessas influências hostis do mundo exterior, mas, de fato, faz já muito tempo que as organizações existentes se deixaram penetrar por

elas, e certas «brechas» estão abertas agora muito amplamente para serem reparadas facilmente. Assim, para não tomar mais que um exemplo típico, ao adotar formas administrativas imitadas das dos governos profanos, estas organizações deram pé a ações antagonistas que, de outro modo, não teriam encontrado nenhum meio de se exercer contra elas e teriam caído no vazio; além do mais, esta imitação do mundo profano constitui, em si mesmo, uma dessas inversões das relações normais que, em todos os domínios, são tão características da desordem moderna. As conseqüências desta «contaminação» são hoje tão manifestas, que é mister estar cego para não as ver e, entretanto, duvidamos que muitos saibam as atribuir a sua verdadeira causa; a mania das «sociedades» está muito arraigada na maioria de nossos contemporâneos para que concebam sequer a simples possibilidade de prescindir de algumas formas puramente exteriores; mas, por esta mesma razão, é possivelmente a isso contra o que deveria reagir em primeiro lugar qualquer pessoa que queira empreender uma restauração iniciática sobre bases verdadeiramente sérias.

Não iremos mais longe nestas reflexões preliminares, já que, repetimo-lo uma vez mais, não é a nós a quem pertence intervir ativamente em tentativas desse gênero; indicar a via a aqueles que possam e queiram comprometer-se nisso, isso é tudo o que pretendemos a este respeito; e, além disso, o alcance do que vamos dizer está muito longe de se limitar à aplicação que se possa fazer disso em uma forma iniciática particular, posto que se trata acima de tudo dos princípios fundamentais que são comuns a toda iniciação, seja do oriente ou do ocidente.

Efetivamente, a essência e a meta da iniciação são sempre e por toda parte as mesmas; só as modalidades diferem, por adaptação aos tempos e aos lugares; e adicionaremos em seguida, para que ninguém possa equivocar-se a este respeito, que esta própria adaptação, para ser legítima, não deve ser nunca uma «inovação», quer dizer, o produto de uma fantasia individual qualquer, mas sim, como a das formas tradicionais em geral, deve proceder sempre em definitivo de uma origem «não humana», sem a qual não

poderia haver realmente nem tradição nem iniciação, mas tão somente alguma dessas «paródias» que encontramos tão freqüentemente no mundo moderno, que não vêm de nada e que não conduzem a nada, e que assim não representam verdadeiramente, caso possa se dizer, mais que um nada puro e simples, quando não são os instrumentos de algo pior ainda.

 

Tradução: Igor Silva

 

Nota: o livro “Considerações sobre a Iniciação” de René Guénon pode ser baixado sem restrições clicando neste link:

https://meocloud.pt/link/1d3d089e-a926-410f-8156-96981a68a7dd/R%C3%A9ne%20%20Gu%C3%A9non%20-%20Considera%C3%A7%C3%B5es%20sobre%20a%20Inicia%C3%A7%C3%A3o.pdf/

 

 

 

 

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